Numa publicação na sua página, intitulada “Xenofobia política no Uíge e na Angola toda, continua...”, Marcolino Moco começou por estabelecer um paralelo entre as diferentes formas de xenofobia existentes no mundo.
O antigo primeiro-ministro considerou fácil denunciar a xenofobia contra africanos na Europa, sobretudo num contexto marcado pela ascensão de movimentos e partidos de direita ultranacionalista em algumas sociedades ocidentais. Também fez referência à xenofobia na África do Sul pós-apartheid, que descreveu como uma realidade de “pretos contra pretos”, defendendo que as suas causas devem ser devidamente avaliadas.
A partir desse enquadramento, Moco dirigiu a crítica para a realidade política angolana. Segundo o antigo dirigente do MPLA, persistem no país sectores que, apesar do fim da guerra em 2002, continuam convencidos de que apenas aqueles ligados à histórica sigla no poder podem fazer política e vencer eleições.
Para Marcolino Moco, esta atitude torna-se particularmente problemática quando é acompanhada por uma avaliação negativa da governação do país ao longo de vários anos.
“Mas esta febre de alguns angolanos que mesmo depois da paz de 2002, agarrados à sigla MPLA, ainda pensam que só eles podem fazer política e ganhar eleições, mesmo gerindo tão mal o país, durante tanto tempo, como se chama, senão xenofobia também?”, questiona.
O antigo primeiro-ministro amplia depois a crítica para o funcionamento interno do próprio partido, apontando para aquilo que considera ser uma concentração de poder em torno de uma única figura e a consequente exclusão de outros sectores.
Na sua análise, essa lógica de exclusão não afectaria apenas os adversários políticos, mas também membros da própria organização partidária, com consequências que, defende, podem comprometer o futuro colectivo.
Moco escreve ainda que esta dinâmica acaba por “comprometer o futuro de todos”, incluindo daqueles que actualmente beneficiam da estrutura política que critica.
Apelo à paz e à reconciliação nacional
Na parte final da publicação, Marcolino Moco apela à rejeição do que classifica como uma utilização unilateral das instituições do Estado por parte de compatriotas angolanos.
O antigo dirigente considera que a ausência de uma verdadeira paz e reconciliação nacionais continua a ter consequências negativas para o país, defendendo que essa realidade está a contribuir para o agravamento das condições de vida dos angolanos.
“Devemos todos recusar esta utilização unilateral das instituições por compatriotas nossos”, afirma, acrescentando que a recusa de uma verdadeira paz e reconciliação nacionais “vai arruinando, aos olhos de todos, a vida em Angola”.
As declarações surgem num momento em que o debate sobre pluralismo político, funcionamento das instituições e reconciliação nacional continua a ocupar espaço na discussão pública angolana. Na sua intervenção, Moco associa essas questões à necessidade de ultrapassar lógicas de exclusão política e de garantir maior abertura à participação de diferentes sectores da sociedade.
A posição expressa pelo antigo primeiro-ministro surgem depois dos confrontos registados no sábado junto à sede provincial da UNITA, no Uíge, durante uma ação da Polícia Nacional.
Segundo o balanço divulgado, pelo menos 31 pessoas ficaram feridas, dez das quais com gravidade, na sequência da intervenção policial.
A Polícia Nacional justificou a operação com a alegada tentativa da UNITA de realizar uma atividade político-partidária num "local impróprio", junto a um tribunal, considerando igualmente reprovável o encerramento de vias públicas para a realização do ato.

