O que é, afinal, a reconciliação genuína
A reconciliação genuína é um processo de restauração profunda da harmonia, que gera paz num relacionamento antes tenso ou rompido. Vai muito além de um simples pedido de desculpas. Não há reconciliação genuína onde se ignoram os abusos e a violência, nem onde falta arrependimento. Também não há lugar para o orgulho, para a sede de poder ou para o ressentimento, porque a relação só se reconstrói sobre a verdade e a dignidade das partes.
O líder norte-americano dos direitos humanos, Martin Luther King Jr., deixou-nos uma lição que continua atual: a escuridão não pode expulsar a escuridão, só a luz o pode fazer. O ódio gera caos e amargura, enquanto o amor é criativo, redentor e capaz de transformar o inimigo em amigo.
Da independência à guerra, e de uma paz incompleta
Angola, a antiga «pérola de África», celebrou em 2025 cinquenta anos de independência de Portugal. Logo após 1975, o país mergulhou numa guerra civil que durou mais de 27 anos. Terminou a 4 de abril de 2002, com a assinatura, no Luena, no leste do país, dos acordos de paz entre a UNITA e o MPLA, pouco depois da morte do líder da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi.
Mas a «paz das armas» não bastou. Passadas mais de duas décadas, a reconciliação genuína entre irmãos continua longe de ser uma realidade palpável.
O MPLA e a luta pelo poder dentro de casa
O MPLA, que venceu a guerra e controla o poder desde a independência, está longe de garantir essa reconciliação. A razão é simples: o partido vive, desde os tempos da luta de libertação, uma disputa interna pelo controlo do poder que dura até hoje. Essa disputa mostra que o MPLA não está em condições de ser o garante de uma iniciativa de reconciliação entre todos os filhos e filhas da nossa terra. Nenhum homem mergulhado num divórcio problemático pode servir de exemplo para a estabilidade do casamento de outro.
A história é, aliás, eloquente. Passa pelo afastamento de figuras como Gentil Viana e Daniel Júlio Chipenda, pelas circunstâncias da morte de António Agostinho Neto, que ainda alimentam especulação, e pelo modo como o partido se distanciou de José Eduardo dos Santos, afastado ainda em vida.
O próximo da lista?
Tudo indica, na minha opinião, que o atual Presidente do MPLA e de Angola, general João Manuel Gonçalves Lourenço, poderá ser o próximo a conhecer o mesmo destino. A Constituição não lhe permite um terceiro mandato. Parece-me que o Presidente receia uma disputa interna pela liderança do partido com o general Francisco Higino Lopes Carneiro.
Mas se Lourenço tentasse assegurar a sua própria sucessão, deixando o poder na Cidade Alta enquanto cedia a liderança na sede do MPLA, o poder acabaria por lhe escapar das mãos. E arriscar-se-ia a ser cercado pelos seus próprios correligionários, como aconteceu com José Eduardo dos Santos.
Um caminho possível: concertação antes de 2027
Na minha modesta opinião, o Presidente João Lourenço deveria iniciar quanto antes um processo de concertação com a UNITA e com toda a sociedade civil. O objetivo seria garantir que as próximas eleições presidenciais, em 2027, sejam livres, justas e transparentes.
Só assim se criariam as condições para um processo que conduza à reconciliação genuína entre todos os angolanos, incluindo a preservação da integridade física e dos direitos das famílias Lourenço e dos Santos. Evitar-se-ia, deste modo, que a família do atual Presidente viva o que viveu a do seu antecessor, cujas filhas, Isabel dos Santos e Tchizé dos Santos, tiveram de abandonar o país.
Estamos todos no mesmo barco
Apesar das diferenças políticas, tribais, religiosas e culturais, somos todos angolanos e estamos no mesmo barco. Angola é a nossa terra e o nosso único lugar, incluindo para as famílias dos Santos e Lourenço. É certo que Nelson Mandelas não nascem todos os dias. Mas acredito que, no MPLA, na UNITA e em toda a sociedade civil, existem homens e mulheres de bem, capazes de contribuir para que a reconciliação seja possível. São eles, os de boa vontade, que conduzem estes processos, em benefício de todos, incluindo os bons e os maus de cada lado.
Conclusão: uma lição da própria história
Sem reconciliação genuína entre todos os filhos e filhas de Angola, jamais haverá paz social, prosperidade e, muito menos, democracia.
O Presidente João Lourenço, historiador de formação, deveria refletir sobre a trajetória do seu partido. Só assim evitará cometer os erros dos líderes que o precederam e que, por se agarrarem ao poder e ignorarem a reconciliação, sofreram consequências que todos conhecemos.
Angola precisa, desesperadamente, de uma reconciliação genuína.
Por Orlando Fonseca, analista político angolano

