Foi precisamente esta dimensão que me chamou a atenção ao acompanhar o discurso do Presidente Donald Trump na 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizado em 22 de Setembro de 2026. Ao abordar Cuba, o Presidente Trump proferiu várias afirmações, dentre elas: a Cuba é um país “Estado falido” e que o regime comunista estaria sob uma pressão sem precedentes e que cairia. Durante essas declarações, observou-se naturalmente a retirada imediata da delegação cubana do grande salão diplomático.
Neste diapasão, mais do que analisar apenas as palavras utilizadas por Trump, é vital tentarmos compreender o significado político de fazê-lo precisamente na Assembleia Geral das Nações Unidas.
A ONU não é simplesmente mais um espaço diplomático. Em seu sentido real, aquele salão diplomático é um dos maiores palcos políticos do sistema internacional. Deste modo, quando um Presidente utiliza essa tribuna para caracterizar negativamente outro Estado, a mensagem deixa de ser dirigida apenas ao governo desse país. Passa a ser ouvida quer pelos restantes Estados, quer pela imprensa internacional e principalmente pela opinião pública mundial.
É aqui que entra uma dimensão importante das Relações Internacionais: o poder das narrativas.
Durante muito tempo, quando pensamos em poder internacional, tradicionalmente caímos nas questões militar e económica. No entanto, a política internacional contemporânea demonstra que também existe poder na capacidade de produzir discursos e criar através das palavras determinadas percepções que terão o fim último de influenciar a forma como os acontecimentos são interpretados.
Um Estado pode tentar convencer os outros de que determinado país representa uma ameaça ou que determinado governo fracassou ou ainda que determinada realidade precisa de ser transformada. A partir desse momento, começa uma disputa não apenas pela realidade, mas também pela interpretação da própria realidade a ser criada.
No caso concreto da Cuba, a declaração de Trump deve ser entendida dentro de uma relação historicamente marcada por confrontação entre os dois governos. Não é nenhuma novidade que os Estados Unidos mantêm um embargo económico, comercial e financeiro contra Cuba há mais de seis décadas. Em 2025, a Assembleia Geral das Nações Unidas voltou a aprovar uma resolução apelando ao fim desse embargo, com 165 votos favoráveis, 7 contrários e 12 abstenções e ainda assim, pouco se vê em termos de resultados dessa resolução, porque a sua concretização depende efectivamente da vontade dos Estados.
Reflectir sobre esses indicadores, não significa ignorar os problemas internos de Cuba. Existem sim questões de matriz económicas, sociais e políticas que podem e devem ser discutidas. Mas também não parece suficiente analisar a situação cubana sem considerar o efeito das décadas de sanções e restrições económicas impostas pelos Estados Unidos. Seria uma utopia de analise.
É justamente nesta esfera que a política internacional se torna complexa. Cada Estado apresenta a sua própria narrativa, selecciona determinados indicadores e acontecimentos e procura convencer os outros da legitimidade da sua posição.
Trump parece compreender muito bem esta dimensão da política internacional. Por isso é que ao falar sobre Cuba diante de praticamente toda a comunidade internacional, a questão deixa de ser somente Cuba. Neste aspecto, percebe-se claramente que a mensagem também é dirigida aos países que mantêm relações diplomáticas, económicas ou políticas com a Cuba. É na verdade uma forma de comunicar qual é a posição actual dos EUA e, simultaneamente, criar um ambiente internacional favorável à sua interpretação sobre o futuro político de Cuba.
Assim sendo, é legítimo observar naturalmente que, os discursos internacionais podem servir para sinalizar intenções, estabelecer posições políticas e medir as reacções de outros actores. A diplomacia também funciona através desses sinais.
A lógica seria neste caso: apresentar uma posição, observar as respostas e reações de outros actores, posteriormente, ajustar a política. É uma dinâmica antiga das relações internacionais onde os Estados procuram perceber até onde podem avançar, quais serão os custos diplomáticos das suas decisões e quais os países que poderão apoiar ou contestar determinada iniciativa.
Por isso, o episódio de Cuba merece atenção não apenas pelo conteúdo das palavras de Trump, mas pelo espaço em que foram pronunciadas.
A Assembleia Geral da ONU deveria ser, acima de tudo, um espaço de diálogo entre Estados soberanos. Quando esse espaço se transforma numa arena de confrontação retórica, existe o risco de a diplomacia ser substituída progressivamente pela lógica da imposição.
Os Estados defendem interesses nacionais, procuram segurança, protegem alianças e tentam aumentar a sua influência. A diferença é que, depois das duas guerras mundiais e da criação das Nações Unidas, estabeleceu-se também uma expectativa de que o exercício do poder deveria estar limitado pelo amparo do Direito Internacional, pela soberania dos Estados e pela solução pacífica dos conflitos prevista no capitulo VI da carta das Nações Unidas.
É por isso que o caso cubano não deve ser observado apenas pela perspectiva dos EUA ou de Cuba. Para muitos países, sobretudo no Sul Global, Cuba possui também uma memória histórica ligada às lutas de libertação africanas. A relação entre Cuba e Angola é um exemplo importante. Em 22 de Dezembro de 1988, Angola, Cuba e África do Sul assinaram o Acordo Tripartido de Nova Iorque, associado ao processo que conduziu à retirada das forças estrangeiras de Angola e à implementação da Resolução 435 do Conselho de Segurança, no contexto da independência da Namíbia.
Além disso, a própria Assembleia Geral da ONU havia condenado o apartheid como crime contra a humanidade e ameaça à paz e segurança internacionais. Por essa razão, para muitos africanos, falar de Cuba não significa apenas falar de um sistema político diferente ou de uma disputa entre Cuba e EUA. Existe também uma memória histórica das relações entre Cuba e os processos de libertação da África Austral.
Isso ajuda a explicar por que razão determinadas narrativas sobre Cuba podem ser recebidas de maneira diferente nos EUA, em Cuba, em Angola ou noutras geografias circunscritas do Sul Global.
No fundo, o episódio ocorrido demonstra naturalmente que a política internacional é também uma disputa pela construção da realidade. Ou seja, quem controla a narrativa não controla necessariamente a realidade, mas pode influenciar a forma como essa realidade é percebida.
Um discurso pode apresentar Cuba como um Estado falhado. Outro discurso pode apresentar Cuba como vítima de décadas de pressão externa. Ambos procuram organizar a realidade a partir de determinados factos, interesses e interpretações. Cabe à comunidade internacional olhar para além das narrativas, confrontar os discursos com os dados e procurar compreender a totalidade do problema.
Talvez esta seja uma das maiores responsabilidades das Nações Unidas: não permitir que o poder de um Estado seja confundido com a verdade absoluta sobre outro Estado.
A força de uma potência pode produzir pressão. Pode produzir sanções. Pode produzir influência. Pode até produzir narrativas com enorme alcance internacional.
Mas, numa ordem internacional baseada no diálogo, a força não deveria substituir o direito, e a narrativa não deveria substituir os factos.
O caso de Cuba mostra-nos, mais uma vez, que as palavras também são instrumentos de poder. E, quando são pronunciadas diante do mundo inteiro, podem representar muito mais do que simples palavras.
Por, Juvenal Quicassa- Especialista em Relações Internacionais

