Sábado, 25 de Julho de 2026
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Sábado, 25 Julho 2026 12:50

Exclusão de Higino Carneiro pode fragilizar o MPLA e beneficiar a oposição, dizem analistas

A exclusão da candidatura de Higino Carneiro à liderança do MPLA poderá ter consequências políticas que ultrapassam a disputa interna do partido no poder, podendo criar oportunidades para a oposição e para os sectores da sociedade civil que defendem a alternância política em Angola. A leitura foi feita por Jonas Sebastião, vice-presidente do Movimento Social para a Mudança, e pela activista e socióloga Luzia Moniz, durante uma entrevista ao programa Radar DW.

Na sua análise, Jonas Sebastião considera que uma eventual divisão interna no MPLA poderá enfraquecer o partido antes das eleições gerais, criando condições favoráveis para os partidos da oposição.

Segundo o dirigente, o principal objectivo deve ser evitar que a actual crise evolua para episódios de violência, defendendo que o confronto permaneça no plano político e institucional.

"Se o MPLA entrar no processo eleitoral completamente fracturado e fragilizado, isso será uma vantagem para a oposição e para a sociedade civil que deseja a alternância", afirmou.

Jonas Sebastião entende que uma divisão no seio do partido poderá representar uma oportunidade semelhante àquela que, na sua perspectiva, surgiu nas eleições de 2022, considerando que um MPLA dividido poderá enfrentar maiores dificuldades no próximo processo eleitoral.

General Pacas acusa direcção do MPLA de impedir competição interna

Em entrevista ao programa Radar DW, o general na reforma Manuel Mendes da Carvalho, conhecido por "Pacas", classificou a exclusão de Higino Carneiro como uma decisão politicamente motivada.

Na sua intervenção, o antigo dirigente do MPLA defendeu que os estatutos do partido admitem a existência de múltiplas candidaturas e acusou a actual direcção de alterar as regras internas para impedir a realização de uma disputa efectiva pela liderança.

Segundo o general, a candidatura ainda poderá recorrer aos tribunais para contestar a decisão, considerando que existem fundamentos para impugnar o acto praticado pela comissão de candidaturas.

Ao longo da entrevista, Manuel Mendes da Carvalho teceu ainda duras críticas à governação de João Lourenço, acusando o Executivo de má gestão, degradação das condições de vida da população e falta de democracia interna no partido.

Analistas consideram decisão previsível

Também ouvido pelo programa, Jónes Sebastião, vice-presidente do Movimento Social para a Mudança, afirmou não ter ficado surpreendido com a exclusão da candidatura de Higino Carneiro.

Na sua análise, sustentou que o MPLA possui um histórico de afastamento de figuras que disputam a liderança interna, considerando que o sucedido faz parte da cultura política do partido.

O dirigente entende igualmente que a decisão poderá abrir caminho para a manutenção de João Lourenço na liderança do MPLA, apelando, por outro lado, aos militantes para evitarem um agravamento das divisões internas.

"Higino Carneiro está a colher o que ajudou a construir"

Questionado sobre as possibilidades de Higino Carneiro reverter a decisão da Subcomissão de Candidaturas, Jonas Sebastião mostrou-se céptico.

Na sua opinião, o antigo governador e general na reforma conhece o funcionamento interno do partido e não pode ser considerado vítima do sistema.

"Higino Carneiro não é vítima. Está a colher os frutos daquilo que ajudou a construir", afirmou.

O responsável sustentou ainda que o pré-candidato poderá enfrentar consequências disciplinares e judiciais, tendo em conta que o processo foi remetido aos órgãos competentes do MPLA na sequência das alegadas irregularidades detectadas durante a verificação das fichas de subscrição.

Apesar das críticas dirigidas ao dirigente do MPLA, Jonas Sebastião apelou aos seus apoiantes para evitarem qualquer escalada de tensão, defendendo que as divergências sejam resolvidas por via política e sem recurso à violência.

Luzia Moniz diz que desfecho era previsível

Também entrevistada pelo Radar DW, a activista e socióloga Luzia Moniz afirmou que a exclusão da candidatura de Higino Carneiro era um desfecho esperado, atendendo, segundo disse, ao histórico do MPLA em matéria de democracia interna.

Para a analista, o partido nunca consolidou mecanismos de competição interna em igualdade de circunstâncias, considerando que os processos eleitorais internos funcionam como "simulacros de democracia".

Na sua leitura, João Lourenço pretende garantir uma candidatura única à liderança do partido para assegurar a continuidade do seu projecto político.

"Quem conhece a história do MPLA sabia que este seria o desfecho", afirmou.

"João Lourenço quer manter-se no poder"

Luzia Moniz defendeu igualmente que a principal preocupação da actual liderança do MPLA consiste na manutenção do poder político, considerando que essa prioridade prevalece sobre eventuais preocupações com a imagem pública do partido.

Na sua opinião, qualquer candidatura alternativa representaria uma ameaça para a actual direcção caso existissem condições de verdadeira competição interna.

A socióloga afirmou ainda que Higino Carneiro acaba por ser confrontado por um sistema político que, na sua perspectiva, também ajudou a construir ao longo da sua trajectória dentro do partido.

"É vítima de um sistema do qual também fez parte", sustentou.

Oposição poderá beneficiar, mas dúvidas permanecem

Apesar de admitir que uma eventual fractura interna poderá favorecer a oposição, Luzia Moniz mostrou reservas quanto à capacidade do actual sistema político permitir uma verdadeira alternância de poder.

Segundo a activista, enquanto se mantiverem inalteradas as actuais regras do funcionamento institucional, dificilmente uma crise interna no MPLA será suficiente para alterar o quadro político nacional.

A entrevista encerrou com a constatação de que a polémica em torno da exclusão de Higino Carneiro continua a alimentar o debate político angolano, numa altura em que o MPLA se prepara para realizar o congresso que irá escolher a sua próxima liderança, mantendo em aberto as discussões sobre a democracia interna no partido e o impacto que este processo poderá ter no panorama político do país.

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