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Quarta, 21 Outubro 2026 15:13

Expulsar o General do MPLA pode ser um erro de palmatória nas vésperas das eleições

Na política, há decisões que parecem resolver problemas imediatos, mas que acabam por criar dificuldades muito maiores no futuro. A eventual expulsão do general Higino Carneiro das fileiras do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) poderá ser uma dessas decisões.

Num momento em que o partido precisa de preservar a sua coesão interna, fortalecer a confiança das suas bases e preparar-se para os desafios eleitorais que se avizinham, afastar uma figura com o seu percurso político poderá revelar-se um erro de palmatória, com consequências difíceis de calcular.

A política não se faz apenas com a aplicação rigorosa das regras internas. Faz-se também com inteligência estratégica, capacidade de diálogo e compreensão dos equilíbrios de poder. Quando um partido enfrenta divergências internas, a primeira pergunta não deve ser como afastar quem pensa de maneira diferente, mas como transformar essas diferenças numa oportunidade para fortalecer a organização. A expulsão pode parecer uma demonstração de autoridade, mas nem sempre representa uma demonstração de força. Por vezes, é precisamente o sinal de que faltou capacidade para gerir o conflito.

Higino Carneiro representa, neste contexto, uma figura que merece uma análise política cuidadosa. O seu percurso nas estruturas do Estado e do partido, a sua experiência e as relações que construiu ao longo dos anos fazem com que a sua posição não possa ser avaliada apenas à luz de um eventual conflito disciplinar. Independentemente das divergências existentes, é necessário compreender o peso político que uma decisão desta natureza poderá ter junto de diferentes sectores do MPLA e do seu eleitorado.

O problema não está em defender que qualquer dirigente deva estar acima dos estatutos ou das regras partidárias. Nenhuma organização política pode sobreviver sem normas, disciplina e mecanismos de responsabilização. Contudo, a aplicação dessas regras deve ser acompanhada de ponderação, transparência e sentido de oportunidade. Se existirem fundamentos para uma medida disciplinar, estes devem ser devidamente avaliados, respeitando os procedimentos internos e o direito de defesa do visado. O que não seria prudente é permitir que uma decisão com implicações políticas tão profundas seja tomada sem uma reflexão séria sobre as suas consequências.

Neste momento, Higino Carneiro pode representar dois caminhos distintos para o futuro do MPLA.

O primeiro é o caminho da união. Se a direcção do partido conseguir construir uma estratégia de diálogo, ultrapassar os impasses e encontrar pontos de convergência, o general poderá constituir um elemento de aproximação entre diferentes sensibilidades internas. Isso exigirá maturidade política de todas as partes, capacidade de escuta e disposição para colocar os interesses colectivos acima das disputas individuais. Um partido que consegue gerir as suas divergências sem destruir as pontes internas demonstra que tem condições para enfrentar desafios maiores.

O segundo é o caminho da divisão. Caso a direcção opte pela expulsão, sobretudo se a decisão for interpretada por sectores do partido como resultado de disputas internas ou de intolerância política, o conflito poderá ultrapassar os limites de uma questão disciplinar. Poderá transformar-se numa fractura mais profunda, alimentando ressentimentos, afastamentos e dificuldades de mobilização. Uma eventual ruptura não significaria automaticamente uma derrota eleitoral, mas poderia criar vulnerabilidades num momento em que cada voto, cada estrutura local e cada liderança com influência política podem assumir particular importância.

É precisamente aqui que reside o risco estratégico. Nas eleições, os partidos não dependem apenas dos seus programas, dos recursos de campanha ou da capacidade de mobilização das suas estruturas formais. Dependem também da confiança dos militantes, da capacidade de agregar diferentes sectores da sociedade e da habilidade para evitar conflitos internos que desviem a atenção dos problemas dos cidadãos. Uma organização que entra num ciclo eleitoral consumida por disputas internas corre o risco de gastar energias a combater dentro de casa quando deveria estar concentrada em conquistar a confiança dos eleitores.

O MPLA conhece, pela sua longa experiência política, a importância da unidade e da disciplina. Mas a unidade verdadeira não se constrói apenas pela obediência, nem a disciplina se confunde com a ausência de divergências. Um partido politicamente forte é aquele que consegue acolher diferentes posições, estabelecer limites claros e resolver conflitos sem transformar cada divergência numa batalha pela sobrevivência de uma das partes. A exclusão pode encerrar formalmente um processo, mas não garante que as causas do conflito desapareçam.

A direcção do MPLA deve, por isso, avaliar não apenas a dimensão estatutária de uma eventual expulsão, mas também o seu alcance político, social e eleitoral. Que ganhos concretos resultariam dessa decisão? Que consequências poderia produzir nas estruturas de base? Como seria interpretada pelos militantes que acompanham o percurso do general? E que mensagem transmitiria aos cidadãos sobre a capacidade do partido para gerir as suas diferenças internas?

Estas perguntas não significam que Higino Carneiro deva ser tratado como uma figura intocável. Significam, antes, que decisões de grande impacto exigem uma análise proporcional à sua importância. A responsabilidade de uma direcção partidária não consiste apenas em decidir, mas em antecipar os efeitos das suas decisões.

Angola aproxima-se de mais um ciclo eleitoral, e o MPLA terá de enfrentar o julgamento dos cidadãos num contexto em que a confiança política, as expectativas sociais e a capacidade de resposta aos problemas concretos da população serão determinantes. Neste cenário, qualquer conflito interno de grande dimensão poderá adquirir um significado que ultrapassa largamente os protagonistas directamente envolvidos.

A questão central, portanto, não é saber quem ganha ou perde uma disputa interna. É perceber se o MPLA sairá dela mais forte, mais unido e mais preparado para o desafio eleitoral, ou se acabará por aprofundar divisões que poderiam ter sido resolvidas através do diálogo.

Se a expulsão de Higino Carneiro vier a concretizar-se sem uma avaliação rigorosa dos seus fundamentos e das suas consequências, poderá ficar registada como uma oportunidade perdida de reconciliação interna e de afirmação de maturidade política. Se, pelo contrário, prevalecer uma estratégia de diálogo, respeito pelos estatutos e gestão responsável das divergências, o partido poderá transformar uma situação delicada numa demonstração de capacidade política.

Na política, nem toda a vitória interna representa uma vitória eleitoral. Às vezes, ganhar uma disputa dentro do partido significa perder apoios fora dele. O MPLA tem diante de si uma escolha que exige prudência: transformar Higino Carneiro num factor de união, mediante uma solução política que respeite as regras partidárias, ou correr o risco de fazer da sua eventual expulsão um novo foco de divisão.

Porque, quando as eleições se aproximam, há erros que não se medem apenas pelo momento em que são cometidos, mas pelo preço que se acaba por pagar nas urnas.

Por Rafael Morais

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