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Quarta, 21 Outubro 2026 12:13

Higino Carneiro perante o veredicto do MPLA: a hora de decidir como quer sair

Perante a previsível rejeição do recurso apresentado ao Comité Central do MPLA, o general Higino Carneiro deveria ponderar uma saída política assumida, anunciando publicamente a desistência da corrida à liderança do partido. Seria uma forma de preservar a sua dignidade política, depois de uma batalha que expôs as limitações da disputa interna no seio da formação política no poder.

Se o desfecho da reunião desta quarta-feira confirmar as expectativas mais pessimistas para o também conhecido por «Peito Alto», uma declaração dirigida aos angolanos poderá representar uma alternativa mais digna do que prolongar o confronto através de sucessivas reclamações e impugnações junto das estruturas partidárias e do Tribunal Constitucional.

A questão, nesta perspectiva, ultrapassa a ambição pessoal de Higino Carneiro. Coloca também em evidência os limites da competição interna num partido cuja liderança parece pouco disponível para abrir espaço a uma disputa efectiva pela presidência.

Entre militantes e observadores da política angolana, subsistem dúvidas sobre as condições em que decorre o processo de escolha do próximo líder do MPLA. A tese de que terá existido pressão interna para impedir a candidatura de Higino Carneiro alimenta a percepção de que a disputa poderá estar condicionada antes mesmo de chegar à fase decisiva. Trata-se, contudo, de uma leitura política que carece de demonstração factual para ser apresentada como conclusão definitiva.

Também o recurso ao Tribunal Constitucional levanta uma questão de natureza institucional: até que ponto poderá uma instância judicial contrariar decisões tomadas no interior do partido no poder? A rejeição anterior da providência cautelar, com fundamento no não esgotamento dos mecanismos internos de recurso, reforça a importância de acompanhar os próximos passos do processo sem antecipar decisões que ainda não foram oficialmente tomadas.

Em política, nem todas as derrotas precisam de terminar em humilhação. Há circunstâncias em que reconhecer os limites de uma batalha constitui um acto de lucidez e até de coragem. Abandonar uma disputa não significa, necessariamente, admitir falta de capacidade ou de determinação; pode representar, pelo contrário, a decisão consciente de não prolongar um confronto cujo resultado se afigura cada vez mais desfavorável.

Higino Carneiro já demonstrou persistência ao levar a sua pretensão até às instâncias internas do partido e ao procurar uma via judicial para contestar a rejeição da candidatura. Independentemente do desfecho, dificilmente poderá ser acusado de não ter tentado disputar a liderança do MPLA.

É precisamente por isso que uma eventual retirada voluntária não teria de ser interpretada como um gesto de cobardia. Pelo contrário, poderia permitir-lhe assumir o controlo da sua própria saída, em vez de ficar dependente de sucessivas decisões de órgãos cuja actuação contesta.

Antecipar uma derrota não é o mesmo que desistir por medo. Em determinadas circunstâncias, é reconhecer a realidade política e evitar que uma batalha perdida comprometa todas as possibilidades futuras de intervenção pública.

Outro aspecto que merece reflexão é o comportamento dos antigos camaradas de Higino Carneiro. Ao longo deste processo, a ausência de um apoio público suficientemente expressivo por parte de figuras com influência no partido poderá alimentar a sensação de isolamento político do general.

A conhecida referência à «legião de generais de Calulo e arredores», apresentada em tom crítico, traduz precisamente essa desilusão com aliados que, na hora decisiva, poderão não ter correspondido às expectativas depositadas neles.

Na política, porém, as alianças raramente sobrevivem apenas à custa de afinidades pessoais ou de histórias partilhadas. São testadas quando os interesses entram em conflito e quando apoiar alguém implica assumir custos perante a estrutura dominante. É nesses momentos que se distingue a solidariedade declarada da lealdade efectiva.

Ainda assim, a ausência de apoio visível não permite concluir, por si só, que todos os antigos camaradas tenham agido de má-fé. O que parece evidente é que Higino Carneiro terá de avaliar com realismo a consistência da sua base de apoio e o espaço político de que efectivamente dispõe.

Se decidir abandonar a corrida, Higino Carneiro não terá necessariamente de pedir desculpas a João Lourenço, ao MPLA ou aos seus dirigentes. Disputar a liderança de um partido é uma pretensão política legítima, desde que exercida nos termos das regras aplicáveis. Defender essa ambição não constitui, por si só, uma afronta que exija retratação.

O general poderá, assim, dirigir-se ao país, explicar as razões da sua decisão e encerrar este capítulo sem transformar a retirada numa declaração de rendição pessoal. Seria uma forma de preservar a autonomia política e de evitar que o processo se arraste numa sucessão de confrontos institucionais de resultado incerto.

A dignidade de um político não se mede apenas pela capacidade de conquistar o poder. Mede-se também pela forma como enfrenta os obstáculos, reconhece os limites e decide o momento de recuar.

Se a reunião do Comité Central confirmar o cenário desfavorável à sua candidatura, Higino Carneiro terá diante de si uma escolha: continuar uma batalha cujo desfecho considera condicionado ou assumir, por iniciativa própria, o fim desta etapa.

Por vezes, a melhor maneira de sair de uma luta não é esperar pela última derrota. É saber quando abandonar o campo, de cabeça erguida, e deixar que a história julgue os protagonistas.

Nota editorial: o texto assume uma perspectiva de opinião. As referências a alegadas pressões internas, ao condicionamento da candidatura e ao comportamento dos antigos aliados são tratadas como interpretações políticas, e não como factos comprovados. A expressão «declaração» foi usada em lugar de «decolação», presumindo tratar-se de um lapso no texto original.

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