Terça, 25 de Agosto de 2026
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Terça, 25 Agosto 2026 20:05

África tem de deixar de exportar minerais em bruto para o Ocidente

Há uma equação que se repete há décadas em praticamente todo o continente africano e que continua a condenar milhões de pessoas à pobreza: África extrai, o Ocidente transforma. Enquanto este modelo se mantiver, dificilmente haverá desenvolvimento real, criação de emprego ou justiça económica para os países africanos.

O mecanismo é conhecido e, ainda assim, persiste. O Ocidente compra a matéria-prima por um preço muito baixo, quase sempre fixado longe dos países produtores, em bolsas e mercados onde África pouco ou nada pesa na negociação. Depois, são as indústrias estrangeiras que transformam o minério em produtos acabados — baterias, telemóveis, painéis solares, joalharia, componentes eletrónicos — vendidos a preços muitas vezes centenas de vezes superiores ao valor pago na origem. O resultado é conhecido: África perde bilhões de dólares todos os anos e deixa de gerar os empregos que essa transformação industrial poderia criar dentro das suas próprias fronteiras.

É esta perda de valor, sistemática e continuada, que está na raiz de um dos dramas mais visíveis da atualidade africana. Sem indústria, sem fábricas, sem cadeias de produção que absorvam mão de obra qualificada, os jovens africanos ficam sem emprego. E, para muitos, resta um caminho desesperado: a travessia rumo à Europa. Milhares têm morrido no Mediterrâneo em busca de um futuro que o seu próprio continente, rico em recursos, não lhes conseguiu oferecer. Os que sobrevivem à travessia raramente encontram o que procuravam — recebem, tantas vezes, salários de miséria, e muitos nem sequer conseguem um emprego formal, vendo-se remetidos para o comércio informal nas margens das cidades europeias.

Há, porém, uma alternativa possível — e ela não exige romper relações com o Ocidente, mas sim mudar os termos dessa relação. Parar de vender minerais em bruto ajudaria África a lucrar mais e a criar empregos, mas essa transição não é automática nem gratuita: exige fábricas, infraestrutura de transporte e, sobretudo, energia estável e abundante — precisamente aquilo de que muitos países africanos ainda carecem. Não basta exigir que a transformação aconteça em solo africano; é preciso construir, com investimento público e privado, as condições materiais para que essa transformação seja possível.

Angola é, neste contexto, um exemplo que merece ser olhado com atenção. O país possui cerca de 36 dos 51 minerais considerados mais críticos do mundo, além de dezenas de outros recursos valiosos espalhados por todo o seu território. Para além do petróleo, dos diamantes e do ouro, Angola já está a construir uma refinaria de petróleo, uma refinaria de ouro e fábricas de corte e polimento — a chamada lapidação —, sinal de que começa a apostar na industrialização da sua riqueza mineral em vez de se limitar a exportá-la em bruto.

É esse o caminho que todo o continente precisa de trilhar, e com urgência. Os 51 minerais considerados mais críticos do mundo, essenciais à transição energética global e à indústria tecnológica, não podem continuar a ser exportados como simples matéria-prima, para depois serem reimportados sob a forma de produtos acabados, a preços multiplicados. Cada tonelada de minério que sai de África sem qualquer transformação é uma oportunidade de emprego, de valor acrescentado e de soberania económica que se perde — e que, mais tarde, a Europa recolhe sob a forma de indústria, tecnologia e riqueza.

Mudar este paradigma não será fácil, nem rápido. Mas é indispensável. Só transformando os seus próprios recursos, África deixará de financiar o desenvolvimento alheio à custa do seu próprio atraso — e dará aos seus jovens uma razão para ficar, construir e prosperar em casa, em vez de arriscar a vida à procura, do outro lado do mar, daquilo que o seu continente já tem.

Por Luis Carlos

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