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Domingo, 18 Outubro 2026 15:44

Angola, 2027: a crise de sucessão do MPLA e a "janela de oportunidade" da oposição

A poucos meses de Angola ir a eleições, o Presidente João Lourenço encontra-se na reta final do segundo e último mandato permitido pela Constituição. Quando, esta quinta-feira, subiu ao púlpito da Assembleia Nacional para o discurso do Estado da Nação, fê-lo pela última vez.

A necessidade de encontrar um herdeiro força o MPLA a olhar para dentro e, para muitos opositores do regime, essa fragilidade abre uma "janela de oportunidade" para pôr fim a mais de cinco décadas de poder. Membros da sociedade civil ouvidos pelo Observador sonham com um resultado diferente do de 2022.

É nessa leitura que assenta a estratégia da oposição para as eleições marcadas para agosto de 2027. "O MPLA nunca esteve tão fragmentado como está agora. Está desarticulado, os interesses internos estão totalmente desencontrados", afirma ao Observador o ativista Hitler Samussuku, que nas últimas eleições integrou as listas de candidatos a deputados da Frente Patriótica Unida, plataforma liderada pela UNITA. Se a parte mais visível da preparação se faz ao nível dos partidos, uma parte significativa desenrola-se na sociedade civil.

Ao contrário do que sucedeu em 2022, os movimentos de contestação social estão cada vez mais independentes dos partidos, em particular da UNITA de Adalberto Costa Júnior, que então reclamou a vitória e desencadeou protestos nas ruas. Ativistas e analistas ouvidos pelo Observador apontam como inevitável uma fraude eleitoral por parte do Governo e acreditam que terá uma resposta nas ruas que nem a UNITA será capaz de refrear. Em 2026, dizem, o povo angolano está "mentalizado" do que o aguarda em 2027 e do papel que pode desempenhar.

Um dos momentos decisivos para o partido no poder será o 9.º Congresso, em dezembro, onde será eleita a nova direção. Numa conferência regional preparatória, na província de Cunene, Carlos Maria Feijó, coordenador do Grupo de Acompanhamento do Bureau Político do MPLA, deixou um raro apelo à introspeção, citado pelo Angola 24 horas: "A História dá-nos autoridade moral, mas não nos dá votos automáticos". A necessidade de reorganização interna para reconquistar os votos de 2022 ficou assim a nu.

Para a especialista Paula Roque, doutorada pela Universidade de Oxford, a autocrítica ilustra um "partido profundamente fraturado", com um conflito interno particularmente evidente na sucessão de Lourenço. A questão já tinha marcado 2017, quando José Eduardo dos Santos anunciou que não se recandidataria. Lourenço, aponta, fez algo que "poderá fazer ricochete": prometeu mudança, empreendeu reformas e depois reverteu-as. "As pessoas conseguiram saborear um pequeno momento de liberdade e depois retiraram-lhes isso", afirma, concluindo que "as pessoas já não caem nessa". Nenhum candidato do MPLA, acredita, seria bem-sucedido num cenário democrático.

A demografia agrava esse desgaste. Em 2024, a idade média no país era de 23,2 anos e 62% dos residentes tinham menos de 25. A maioria dos eleitores não guarda memória da guerra civil, o que, segundo Paula Roque, retirou ao MPLA a capacidade de "capitalizar com o medo das pessoas", como fez durante décadas. Para as gerações mais novas, a política é marcada menos pelo medo e mais pela desilusão com as promessas de 2017 que ficaram por cumprir.

Entretanto, o poder prepara o terreno. A lei das fake news, em vigor desde agosto, a lei da segurança nacional, de setembro de 2024, e a lei das ONG, de março, podem, alertam especialistas e ativistas, ser instrumentalizadas contra a oposição num cenário pós-eleitoral semelhante ao de 2022. "Estas leis são quase criminalizar a verdade", acusa Paula Roque. Samussuku fala de uma "fera ferida" a lutar pela sobrevivência, num regime que, nos seus últimos dias, recorre à censura e à perseguição de adversários.

Os ativistas continuam, ainda assim, a jogar o "jogo institucional". Luaty Beirão, do movimento cívico Mudei, descreveu-o, num evento em Lisboa sobre justiça eleitoral, como um jogo perdido, mas necessário: apresentam propostas legislativas, recorrem aos tribunais e monitorizam os processos eleitorais. Os resultados, admite, são os esperados: antipatia e portas institucionais fechadas, prova de que as instituições estão capturadas. Os oradores denunciam urnas clonadas com votos pré-definidos e manipulação de votos, coordenadas com a Indra, responsável pela logística e tecnologia eleitoral desde 2008. Por isso, recusam chamar "eleições" ao que se passa em Angola e preferem termos como "fraude", "batota", "simulação" ou "simulacro".

A grande diferença face a 2022 está na origem da mobilização. No último verão, o aumento do preço dos combustíveis motivou uma greve de taxistas que evoluiu para um protesto generalizado contra o custo de vida: em três dias de tumultos, a polícia registou 30 mortos e 277 feridos. "A própria UNITA está bem consciente que, se desta vez apelar ou não apelar, o povo sairá às ruas. Eu tenho plena certeza que desta vez ninguém vai esperar pelo apito ou pelo chamamento da UNITA ou do seu presidente", pondera Hitler Samussuku. Luaty Beirão defende um afastamento deliberado do Mudei face ao partido, apostando no reforço da sociedade civil, e admite a desestruturação e as divisões da oposição, em parte por "ego". Paula Roque é menos pessimista: sustenta que a UNITA ganhou eleitorado, defende uma contagem paralela em todo o país e prevê que nem um apelo à calma tiraria os manifestantes das ruas.

A dimensão internacional poderá igualmente influenciar o ambiente político angolano. As eleições previstas na Nigéria e no Quénia, em 2027, poderão contribuir para dar maior visibilidade às dinâmicas políticas africanas e inspirar movimentos cívicos em Angola. Os ativistas procuram também mobilizar a atenção de Portugal, país que consideram ter responsabilidades acrescidas devido à influência histórica e política que mantém na região. Hitler Samussuku defende que Lisboa deve adotar uma posição de neutralidade e transparência perante o processo eleitoral angolano. Apesar das divisões na oposição, das dificuldades de organização da sociedade civil e das preocupações com a liberdade política, a sucessão de João Lourenço abre um período de incerteza que poderá alterar o equilíbrio de forças no país. Para os opositores do MPLA, a questão central será transformar o descontentamento popular numa mobilização capaz de produzir uma mudança política efetiva.

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