Segunda, 05 de Outubro de 2026
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Segunda, 05 Outubro 2026 18:01

Sonangol e a mineração: diversificar Angola não é diversificar demasiado a Sonangol

A intenção da Sonangol de reforçar a sua presença no sector mineiro, em particular nos chamados minerais críticos, merece ser recebida com interesse. Angola possui recursos cujo potencial económico poderá ganhar crescente relevância na transição energética mundial.

Mas é precisamente por ter feito parte do capital humano da Sonangol, e por reconhecer a sua importância estratégica para a economia nacional, que esta matéria exige uma reflexão mais profunda e prudente, desprovida de qualquer espírito de oposição.

A questão não é saber se Angola deve investir na mineração. Deve, claramente. A questão é saber quem o deve fazer, com que capital, sob que modelo institucional e qual deve ser, nesse processo, o papel da Sonangol.

Diversificar o país não é diversificar o balanço da empresa

A Sonangol é uma das empresas estratégicas mais importantes do Estado angolano. O seu objecto social principal está histórica e juridicamente associado à prospecção, pesquisa, desenvolvimento, produção, transporte, comercialização, refinação e transformação de hidrocarbonetos líquidos e gasosos e seus derivados, incluindo a petroquímica.

É certo que o enquadramento da empresa admite actividades complementares e outras actividades industriais ou comerciais, mediante decisão dos órgãos competentes. Juridicamente, portanto, não faz sentido apresentar o tema como se a Sonangol estivesse impedida de participar na mineração.

A questão é outra, e porventura mais importante: será estrategicamente conveniente que a Sonangol converta a diversificação do país numa diversificação do seu próprio balanço?

A distinção é fundamental. Angola precisa de diversificar a sua economia. Isso não significa que a Sonangol tenha de ser, em simultâneo, petrolífera, mineira, industrial, logística, energética e investidora em múltiplas cadeias de valor. Uma empresa pode contribuir para a diversificação nacional sem assumir directamente todos os riscos que ela comporta.

O capital público tem custo de oportunidade

O tema ganha peso quando está em causa uma empresa pública. Todo o capital tem um custo de oportunidade: cada dólar aplicado num novo sector é um dólar que deixa de poder reforçar a produção petrolífera, o gás natural, a refinação, a logística ou as infra-estruturas ligadas à cadeia energética.

O Relatório e Contas de 2025 indica que a Sonangol executou cerca de 3,438 mil milhões de dólares de CAPEX, concentrados essencialmente na exploração e produção, refinação, logística e gás natural. A empresa já tem, portanto, uma agenda de investimento de enorme dimensão.

Por isso, a pergunta prudente não é «pode a Sonangol investir na mineração?», mas sim «onde é que cada dólar investido pela Sonangol gera maior valor para a empresa, para o Estado e para a economia angolana?». É uma pergunta de gestão estratégica, não ideológica.

Catalisadora, mais do que operadora

Existe uma alternativa que me parece particularmente interessante: a Sonangol pode ser muito mais importante para a mineração angolana como catalisadora de capital do que como operadora mineira.

Em vez de concentrar recursos financeiros, humanos e de gestão na exploração directa de minerais, a empresa poderia usar a sua capacidade institucional, financeira, técnica e internacional para:

━ atrair investidores nacionais e estrangeiros para o sector;

━ estruturar projectos financiáveis (bankable);

━ promover joint ventures entre investidores internacionais e empresários angolanos;

━ participar na avaliação económica de projectos estratégicos;

━ apoiar a criação de empresas mineiras angolanas com capacidade internacional;

━ facilitar o acesso a mercados e a parceiros tecnológicos;

━ promover o financiamento e o project finance;

━ criar mecanismos de off-take e de comercialização;

━ estimular a transformação local dos minerais;

━ apoiar a internacionalização das empresas mineiras angolanas.

Desta forma, a Sonangol não deixaria de participar na estratégia nacional de diversificação. Pelo contrário: poderia tornar-se uma das principais plataformas de promoção de investimento na mineração, sem assumir necessariamente o papel de principal operador.

Espaço para o empresariado nacional

Angola tem empresários, geólogos, engenheiros, investidores e empresas que precisam de oportunidades para crescer. Se a Sonangol entrar directamente em demasiadas áreas da mineração, corre o risco de ocupar, involuntariamente, espaço que poderia ser desenvolvido pelo sector privado nacional.

Uma política económica madura deveria procurar o inverso: usar as grandes empresas estratégicas do Estado para abrir espaço, mobilizar capital e criar condições para que centenas de empresas nacionais possam crescer.

Imagine-se uma estrutura em que a Sonangol identifica um projecto mineiro com potencial, ajuda a estruturá-lo, atrai um parceiro tecnológico internacional, facilita o financiamento e permite que empresários angolanos participem no capital. Um projecto assim não geraria apenas minério. Geraria empresas angolanas, emprego, conhecimento, impostos, tecnologia, financiamento, uma cadeia de fornecedores e capacidade exportadora. É um dos maiores efeitos multiplicadores que uma empresa estratégica do Estado pode produzir.

Investidora, sim; operadora, não necessariamente

Há uma nuance a reconhecer. Defender que a Sonangol evite transformar-se numa grande operadora mineira não equivale a defender que se mantenha completamente afastada do sector. Existem modelos intermédios. A Sonangol poderia, por exemplo, assumir participações minoritárias em projectos de interesse estratégico, deixando a operação a cargo de empresas especializadas.

A própria orientação recentemente comunicada pela administração da empresa aponta para a possibilidade de trabalhar com entidades especializadas na exploração dos minerais.

A diferença está na filosofia. Uma coisa é ter presença estratégica; outra é construir uma segunda Sonangol dentro da mineração. A primeira pode ser um instrumento de diversificação. A segunda pode gerar dispersão de capital, de competências e de atenção administrativa.

O verdadeiro activo: a capacidade de mobilização

A Sonangol possui o que muitas empresas mineiras emergentes não têm: escala, reputação institucional, experiência internacional, capacidade de negociação e acesso a grandes parceiros. Esse poder pode ser usado para abrir portas, e abrir portas pode ser economicamente mais relevante do que ocupar todas as salas.

Como «âncora de investimento», a Sonangol poderia ser a ponte entre capital internacional, Estado, empresários angolanos, tecnologia, recursos minerais e mercados externos, sem carregar sozinha o risco operacional, geológico, financeiro e comercial inerente à mineração.

Vários campeões nacionais, não uma empresa em todos os sectores

Este é, porventura, o ponto central. O objectivo da diversificação deveria ser criar múltiplos campeões nacionais, e não concentrar todos os sectores estratégicos em poucas empresas públicas.

Angola precisa de grandes petrolíferas, de grandes mineiras, de empresas industriais, tecnológicas e logísticas, de empresas capazes de competir a nível regional e internacional. A Sonangol não tem de ser todas elas. Pode ajudar a criá-las. E talvez seja essa uma das formas mais inteligentes de exercer o seu papel histórico na economia nacional.

Uma Sonangol forte precisa de foco

Quanto maior é uma empresa, maior deve ser a sua disciplina estratégica. A diversificação sem disciplina pode degenerar em dispersão; a dispersão, em perda de foco; e a perda de foco, numa empresa de importância sistémica para o Estado, pode ter consequências que ultrapassam a própria empresa.

Defender o foco da Sonangol não é defender uma empresa fechada ao futuro. É o contrário: é querer uma Sonangol suficientemente forte, eficiente e concentrada no seu núcleo de excelência para continuar a financiar, promover e catalisar a transformação económica do país.

Uma proposta para reflexão

Angola poderia adoptar uma arquitectura em três níveis:

1 ━ Núcleo energético. A Sonangol concentra-se prioritariamente no petróleo, gás, refinação, petroquímica, logística e áreas directamente relacionadas.

2 ━ Catalisação. A Sonangol actua como promotora de investimentos em sectores estratégicos emergentes, incluindo os minerais críticos.

3 ━ Execução privada e especializada. Empresários angolanos, empresas especializadas e investidores internacionais assumem progressivamente a execução e a operação dos projectos mineiros, com a Sonangol a participar selectivamente quando houver justificação estratégica clara.

Este modelo permitiria ao Estado manter influência estratégica sem assumir todo o risco empresarial.

Conclusão

A discussão sobre a entrada da Sonangol na mineração não deve ser conduzida como uma disputa entre «diversificação» e «não diversificação». Angola deve diversificar; a questão é como diversificar melhor.

A Sonangol pode ter um papel extraordinariamente importante na mineração sem se transformar numa empresa mineira. Pode mobilizar capital, estruturar projectos, atrair tecnologia, criar parcerias, abrir mercados, aproximar investidores e ajudar empresários angolanos a converter recursos minerais em empresas competitivas. E pode fazê-lo preservando aquilo que talvez seja o seu maior património estratégico: a concentração de competências e de capital no sector energético em que construiu a sua experiência e a sua importância nacional.

No fundo, a pergunta mais inteligente talvez não seja «por que razão não deve a Sonangol investir na mineração?», mas sim: como pode a Sonangol levar Angola a investir muito mais na mineração sem ter de assumir sozinha esse investimento?

É essa mudança de perspectiva que transforma a Sonangol de simples participante em verdadeiro arquitecto da diversificação económica nacional. A oportunidade não está em fazer da Sonangol a dona de todas as oportunidades de Angola, mas em fazer dela uma das instituições que mais oportunidades criam para os angolanos.

Por: Tyilenga Tyokuehandja

Economista

 ━Antigo quadro da Sonangol.

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Last modified on Segunda, 05 Outubro 2026 21:45