Terça, 08 de Setembro de 2026
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Terça, 08 Setembro 2026 09:21

FNLA às portas do VI Congresso, entre disputas internas e ameaça de sanções financeiras

A pouco mais de duas semanas da realização do VI Congresso Ordinário da FNLA, marcado para o período entre 23 e 25 deste mês, intensificam-se os preparativos para o evento, que continua ensombrado pela desunião no seio do partido.

Numa clara demonstração de que a reconciliação entre os "irmãos" continua longe de se concretizar, duas comissões trabalham em paralelo na preparação do congresso: uma com a chancela da ala da direcção do partido, fiel ao presidente Nimi a Simbi, e outra criada por um grupo de membros do Comité Central contestatários do presidente. Cada uma reclama legitimidade sobre o que faz, com os dois órgãos a trabalharem a todo o vapor para o cumprimento dos prazos. Enquanto na ala fiel à direcção decorre, a meio caminho, a realização das assembleias electivas para o congresso, o grupo contestatário já entrou em campanha eleitoral.

A comissão coordenada por Ndonda Nzinga admitiu cinco candidatos à sucessão de Nimi a Simbi: Carlito Roberto, Pedro Gomes, Daniel Afonso, Kiaku Kiala e Sofia Francisco. Já Álvaro Manuel e Pedro Wete, "chumbados" no primeiro turno, mantêm a possibilidade de ver as suas candidaturas admitidas, desde que consigam suprir a tempo as insuficiências detectadas pela comissão de mandatos.

Entre os apurados, apenas Carlito Roberto, filho do fundador do partido, já faz "caça ao voto" desde o último sábado. Para o lançamento da campanha, o candidato elegeu a terra natal do pai, Mbanza Kongo, onde a FNLA conta com muitos militantes e simpatizantes. Durante o acto, o jurista e antigo deputado à Assembleia Nacional prometeu reerguer o partido, que vive há décadas uma crise de liderança. Depois de Malanje, onde fez campanha ontem, Carlito Roberto segue hoje para o Cuanza-Norte.

Daniel Afonso, licenciado em Ciências da Educação pela Universidade Agostinho Neto e em Direito pelo Instituto Piaget, lança a sua campanha amanhã, em Luanda, garantindo ter um "programa rico em projectos que visam desenvolver e engrandecer o partido".

Kiaku Kiala, de 46 anos, é o candidato mais novo à liderança. Contactado pelo Jornal de Angola, anunciou para esta semana uma conferência de imprensa em Luanda, na qual promete lançar a campanha sob a bandeira de um "processo urgente de saneamento e revitalização do partido".

Sofia Francisco, única candidata mulher, prevê lançar a sua campanha apenas na próxima semana, também em Luanda, justificando o atraso com dificuldades em encontrar um espaço à altura do que pretende. A antiga combatente já adiantou ao Jornal de Angola a sua intenção, caso seja eleita: "Quero ser uma líder inclusiva e que ouve todos os militantes."

Já Fernando Pedro Gomes, de 69 anos, esteve incontactável. Docente e antigo assessor para os Assuntos Políticos de Holden Roberto, concorre pela terceira vez à liderança da FNLA, garantindo que "a terceira é de vez" e que, se eleito, trabalhará para unificar o partido.

A porta-voz da direcção da FNLA, Maria Bulevo, admitiu haver atraso na conclusão dos trabalhos para o congresso, justificando a demora com dificuldades financeiras. Em declarações ao Jornal de Angola, Bulevo referiu que o partido recebe mensalmente do Estado cinco milhões de kwanzas, verba que considera insuficiente para cobrir a diversidade de necessidades, como o pagamento de arrendamentos das instalações em todo o país e despesas com material gastável. Ainda assim, garantiu: "O Congresso vai acontecer."

Paralelamente à disputa interna, a FNLA corre o risco de enfrentar sanções financeiras severas e um processo de responsabilidade civil e criminal por não prestar contas dos fundos públicos recebidos para a campanha eleitoral de 2022. Segundo uma fonte da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), o órgão não aceitou o documento apresentado pelo partido devido a incumprimento temporal, mantendo o processo pendente de regularização e de posterior encaminhamento aos órgãos competentes, como o Tribunal de Contas. De acordo com a lei, em caso de falhas ou inconformidades nos relatórios financeiros, a CNE notifica o partido para que corrija as irregularidades num prazo de 15 dias.

O Comité Central da FNLA acusou recentemente o presidente Nimi a Simbi de gerir o partido com uma visão "meramente mercantilista", centrada apenas na obtenção de verbas públicas para as eleições gerais de 2027. Este órgão superior do partido criticou ainda, com severidade, a falta de esclarecimentos e de transparência sobre o relatório de contas dos custos da campanha eleitoral de 2022. Nimi a Simbi tem rejeitado as acusações de má gestão de recursos e de violações estatutárias feitas por uma facção do Comité Central ligada ao antigo líder Ngola Kabangu.

O jurista António Santana Guiomar Neto explicou que, em caso de sanções financeiras imediatas, o partido fica impedido de receber novas tranches ou dotações orçamentais por parte do Estado até que a situação seja regularizada. "Segundo a lei, se as formações políticas continuarem a recusar prestar contas ou se for detectada a utilização indevida de verbas para fins não partidários, a CNE tem a obrigação legal de encaminhar o processo para o Tribunal de Contas e para a Procuradoria-Geral da República", esclareceu.

Refira-se que o Tribunal de Contas já intimou Nimi a Simbi a realizar o VI Congresso da FNLA.

O conflito interno agudizou-se precisamente devido à existência de duas comissões preparatórias concorrentes: uma liderada pela actual direcção de Nimi a Simbi, outra apoiada por membros do Comité Central e pelo histórico Ngola Kabangu.

A FNLA foi formalmente constituída em 1962, resultante da fusão de movimentos nacionalistas anteriores liderados por Holden Roberto, ainda que as origens e a fundação ideológica do movimento remontem a 1954. Mais de seis décadas depois, o partido chega a este congresso a braços com uma das crises internas mais profundas da sua história recente.

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