Mas é precisamente por ter feito parte do capital humano da Sonangol, e por reconhecer a sua importância estratégica para a economia nacional, que esta matéria exige uma reflexão mais profunda e prudente, desprovida de qualquer espírito de oposição.
A questão não é saber se Angola deve investir na mineração. Deve, claramente. A questão é saber quem o deve fazer, com que capital, sob que modelo institucional e qual deve ser, nesse processo, o papel da Sonangol.
Diversificar o país não é diversificar o balanço da empresa
A Sonangol é uma das empresas estratégicas mais importantes do Estado angolano. O seu objecto social principal está histórica e juridicamente associado à prospecção, pesquisa, desenvolvimento, produção, transporte, comercialização, refinação e transformação de hidrocarbonetos líquidos e gasosos e seus derivados, incluindo a petroquímica.
É certo que o enquadramento da empresa admite actividades complementares e outras actividades industriais ou comerciais, mediante decisão dos órgãos competentes. Juridicamente, portanto, não faz sentido apresentar o tema como se a Sonangol estivesse impedida de participar na mineração.
A questão é outra, e porventura mais importante: será estrategicamente conveniente que a Sonangol converta a diversificação do país numa diversificação do seu próprio balanço?
A distinção é fundamental. Angola precisa de diversificar a sua economia. Isso não significa que a Sonangol tenha de ser, em simultâneo, petrolífera, mineira, industrial, logística, energética e investidora em múltiplas cadeias de valor. Uma empresa pode contribuir para a diversificação nacional sem assumir directamente todos os riscos que ela comporta.
O capital público tem custo de oportunidade
O tema ganha peso quando está em causa uma empresa pública. Todo o capital tem um custo de oportunidade: cada dólar aplicado num novo sector é um dólar que deixa de poder reforçar a produção petrolífera, o gás natural, a refinação, a logística ou as infra-estruturas ligadas à cadeia energética.
O Relatório e Contas de 2025 indica que a Sonangol executou cerca de 3,438 mil milhões de dólares de CAPEX, concentrados essencialmente na exploração e produção, refinação, logística e gás natural. A empresa já tem, portanto, uma agenda de investimento de enorme dimensão.
Por isso, a pergunta prudente não é «pode a Sonangol investir na mineração?», mas sim «onde é que cada dólar investido pela Sonangol gera maior valor para a empresa, para o Estado e para a economia angolana?». É uma pergunta de gestão estratégica, não ideológica.
Catalisadora, mais do que operadora
Existe uma alternativa que me parece particularmente interessante: a Sonangol pode ser muito mais importante para a mineração angolana como catalisadora de capital do que como operadora mineira.
Em vez de concentrar recursos financeiros, humanos e de gestão na exploração directa de minerais, a empresa poderia usar a sua capacidade institucional, financeira, técnica e internacional para:
━ atrair investidores nacionais e estrangeiros para o sector;
━ estruturar projectos financiáveis (bankable);
━ promover joint ventures entre investidores internacionais e empresários angolanos;
━ participar na avaliação económica de projectos estratégicos;
━ apoiar a criação de empresas mineiras angolanas com capacidade internacional;
━ facilitar o acesso a mercados e a parceiros tecnológicos;
━ promover o financiamento e o project finance;
━ criar mecanismos de off-take e de comercialização;
━ estimular a transformação local dos minerais;
━ apoiar a internacionalização das empresas mineiras angolanas.
Desta forma, a Sonangol não deixaria de participar na estratégia nacional de diversificação. Pelo contrário: poderia tornar-se uma das principais plataformas de promoção de investimento na mineração, sem assumir necessariamente o papel de principal operador.
Espaço para o empresariado nacional
Angola tem empresários, geólogos, engenheiros, investidores e empresas que precisam de oportunidades para crescer. Se a Sonangol entrar directamente em demasiadas áreas da mineração, corre o risco de ocupar, involuntariamente, espaço que poderia ser desenvolvido pelo sector privado nacional.
Uma política económica madura deveria procurar o inverso: usar as grandes empresas estratégicas do Estado para abrir espaço, mobilizar capital e criar condições para que centenas de empresas nacionais possam crescer.
Imagine-se uma estrutura em que a Sonangol identifica um projecto mineiro com potencial, ajuda a estruturá-lo, atrai um parceiro tecnológico internacional, facilita o financiamento e permite que empresários angolanos participem no capital. Um projecto assim não geraria apenas minério. Geraria empresas angolanas, emprego, conhecimento, impostos, tecnologia, financiamento, uma cadeia de fornecedores e capacidade exportadora. É um dos maiores efeitos multiplicadores que uma empresa estratégica do Estado pode produzir.
Investidora, sim; operadora, não necessariamente
Há uma nuance a reconhecer. Defender que a Sonangol evite transformar-se numa grande operadora mineira não equivale a defender que se mantenha completamente afastada do sector. Existem modelos intermédios. A Sonangol poderia, por exemplo, assumir participações minoritárias em projectos de interesse estratégico, deixando a operação a cargo de empresas especializadas.
A própria orientação recentemente comunicada pela administração da empresa aponta para a possibilidade de trabalhar com entidades especializadas na exploração dos minerais.
A diferença está na filosofia. Uma coisa é ter presença estratégica; outra é construir uma segunda Sonangol dentro da mineração. A primeira pode ser um instrumento de diversificação. A segunda pode gerar dispersão de capital, de competências e de atenção administrativa.
O verdadeiro activo: a capacidade de mobilização
A Sonangol possui o que muitas empresas mineiras emergentes não têm: escala, reputação institucional, experiência internacional, capacidade de negociação e acesso a grandes parceiros. Esse poder pode ser usado para abrir portas, e abrir portas pode ser economicamente mais relevante do que ocupar todas as salas.
Como «âncora de investimento», a Sonangol poderia ser a ponte entre capital internacional, Estado, empresários angolanos, tecnologia, recursos minerais e mercados externos, sem carregar sozinha o risco operacional, geológico, financeiro e comercial inerente à mineração.
Vários campeões nacionais, não uma empresa em todos os sectores
Este é, porventura, o ponto central. O objectivo da diversificação deveria ser criar múltiplos campeões nacionais, e não concentrar todos os sectores estratégicos em poucas empresas públicas.
Angola precisa de grandes petrolíferas, de grandes mineiras, de empresas industriais, tecnológicas e logísticas, de empresas capazes de competir a nível regional e internacional. A Sonangol não tem de ser todas elas. Pode ajudar a criá-las. E talvez seja essa uma das formas mais inteligentes de exercer o seu papel histórico na economia nacional.
Uma Sonangol forte precisa de foco
Quanto maior é uma empresa, maior deve ser a sua disciplina estratégica. A diversificação sem disciplina pode degenerar em dispersão; a dispersão, em perda de foco; e a perda de foco, numa empresa de importância sistémica para o Estado, pode ter consequências que ultrapassam a própria empresa.
Defender o foco da Sonangol não é defender uma empresa fechada ao futuro. É o contrário: é querer uma Sonangol suficientemente forte, eficiente e concentrada no seu núcleo de excelência para continuar a financiar, promover e catalisar a transformação económica do país.
Uma proposta para reflexão
Angola poderia adoptar uma arquitectura em três níveis:
1 ━ Núcleo energético. A Sonangol concentra-se prioritariamente no petróleo, gás, refinação, petroquímica, logística e áreas directamente relacionadas.
2 ━ Catalisação. A Sonangol actua como promotora de investimentos em sectores estratégicos emergentes, incluindo os minerais críticos.
3 ━ Execução privada e especializada. Empresários angolanos, empresas especializadas e investidores internacionais assumem progressivamente a execução e a operação dos projectos mineiros, com a Sonangol a participar selectivamente quando houver justificação estratégica clara.
Este modelo permitiria ao Estado manter influência estratégica sem assumir todo o risco empresarial.
Conclusão
A discussão sobre a entrada da Sonangol na mineração não deve ser conduzida como uma disputa entre «diversificação» e «não diversificação». Angola deve diversificar; a questão é como diversificar melhor.
A Sonangol pode ter um papel extraordinariamente importante na mineração sem se transformar numa empresa mineira. Pode mobilizar capital, estruturar projectos, atrair tecnologia, criar parcerias, abrir mercados, aproximar investidores e ajudar empresários angolanos a converter recursos minerais em empresas competitivas. E pode fazê-lo preservando aquilo que talvez seja o seu maior património estratégico: a concentração de competências e de capital no sector energético em que construiu a sua experiência e a sua importância nacional.
No fundo, a pergunta mais inteligente talvez não seja «por que razão não deve a Sonangol investir na mineração?», mas sim: como pode a Sonangol levar Angola a investir muito mais na mineração sem ter de assumir sozinha esse investimento?
É essa mudança de perspectiva que transforma a Sonangol de simples participante em verdadeiro arquitecto da diversificação económica nacional. A oportunidade não está em fazer da Sonangol a dona de todas as oportunidades de Angola, mas em fazer dela uma das instituições que mais oportunidades criam para os angolanos.
Por: Tyilenga Tyokuehandja
Economista
━Antigo quadro da Sonangol.

