Peritos do sector consideram que a Trafigura abandonou o projecto, mas o governo assegura que ainda está em fase de negociação, estando já em curso algumas alterações quanto aos membros do consórcio interessados em implementar o contrato.
A linha da Trafigura era uma de pelo menos três iniciativas privadas em disputa para exportar o excedente hidroeléctrico de Angola para a região. Entretanto, a Somagec e a Averi Finance lideram, através da sua subsidiária Meridia Energy, outros projectos ambiciosos de transmissão de energia em desenvolvimento na região, avaliados em 2 mil milhões de dólares de investimento privado para interligar Angola a países com escassez de energia, como a RDC que, à semelhança da vizinha Zâmbia, enfrenta restrições energéticas devido à seca.
As duas linhas de transmissão energética entre Angola e RDC, desenvolvidas pela Somagec e pela Averi Finance, estão totalmente estruturadas, técnica, financeira e institucionalmente, e prontas para entrar em construção, com capital inteiramente privado, sem qualquer encargo para o Estado angolano e sem garantias soberanas — algo ainda raro em projectos de transmissão desta dimensão em África. Com a concessão já atribuída por decreto presidencial e o financiamento integralmente assegurado, a Meridia Energy afirma-se hoje como a iniciativa mais avançada entre os vários projectos de interligação em disputa na região.
Os dois projectos são a linha Soyo-Inga-Cabinda, com capacidade de até 800 MW e custo aproximado de US$ 450 milhões, e uma segunda linha de maior dimensão que liga Laúca a Kolwezi na RDC, com capacidade de até 1.400 MW, com um custo de US$ 1,25 mil milhões. A operação comercial de ambas as linhas poderá ter início até 2030.
No início de Julho de 2026, o Presidente angolano, João Lourenço, aprovou, através do Decreto Presidencial nº 115/26, a atribuição ao consórcio Somagec-Averi, a Meridia Energy, da concessão do sistema de transporte de energia eléctrica que vai ligar Angola à República Democrática do Congo. A concessão abre caminho à exportação de electricidade angolana para os mercados da região e representa um passo decisivo na estratégia do país para reforçar a sua segurança energética e assumir-se como fornecedor de energia na África Austral e na África Central.
O maior projecto de interligação eléctrica transfronteiriça alguma vez concretizado em África sem recurso a fundos públicos é desenvolvido e executado pela Meridia Energy, que assume integralmente os encargos financeiros, técnicos e operacionais. É através da Meridia que uma das mais ambiciosas infra-estruturas energéticas do continente ganha agora forma.
O projecto — baptizado de “Corredor Norte” — engloba as duas linhas que, no seu conjunto, ligam o Soyo à fronteira congolesa, estendem a rede eléctrica nacional até Cabinda e alcançam o polo mineiro de Kolwezi, na RDC. Além do impacto regional, o projecto traz benefícios directos às populações de Cabinda, reforçando o abastecimento eléctrico e criando condições para o desenvolvimento económico local.
A Somagec assegura a engenharia, os estudos de viabilidade técnica e a avaliação de impacto ambiental, enquanto a Averi Finance lidera toda a estruturação financeira e a mobilização de capital, tendo já garantido o financiamento integral das duas principais linhas, consolidando a sua posição como referência no financiamento de infra-estruturas energéticas em África.
Por sua vez, a HYDRO-LINK, sediada nos Estados Unidos, pretende construir uma interconexão ligando Angola à República Democrática do Congo, com o objectivo de fornecer electricidade fiável e de baixo custo, principalmente para as províncias de Lualaba e Katanga. No entanto, segundo fontes da empresa, os financiadores só serão confirmados assim que todo o trabalho preliminar de desenvolvimento necessário para alcançar a viabilidade bancária e o fecho financeiro for concluído. Ao contrário da Meridia Energy, cujo financiamento já se encontra assegurado, a HYDRO-LINK ainda não alcançou o fecho financeiro do seu projecto.
A agência AUDA-NEPAD, da União Africana, apoia igualmente dois projectos prioritários semelhantes de transmissão em Angola, país que possui excedente de energia hidreléctrica, e que está isolado das redes eléctricas regionais há décadas.
Importa salientar que, em Maio deste ano, aquando da audiência concedida ao Ministro dos Recursos Hídricos e Electricidade, Sakombi Molendo, pelo Presidente João Lourenço, o ministro congolês afirmou que a energia destas duas linhas de transmissão poderá apoiar as empresas e as populações da RDC, permitindo-lhes beneficiar deste recurso de que Angola já dispõe. Apesar do enorme potencial existente na barragem de Inga, Sakombi Molendo sublinhou que a RDC necessita de Angola para diversificar o fornecimento de energia.
Um dos aspectos mais notáveis da operação da Meridia Energy é o seu modelo de financiamento, totalmente privado e sem garantias soberanas, o que consagra a Somagec e a Averi Finance como arquitectas de uma nova geração de infra-estruturas energéticas em África e posiciona Angola como exportador regional de energia, garantindo à RDC capacidade firme para servir mais de 100 milhões de habitantes.

