Quarta, 08 de Julho de 2026
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Quarta, 08 Julho 2026 17:28

Julgamento de russos em Angola é "teatro político" para agradar ao Ocidente, acusa Rafael Marques

O ativista angolano associa o processo por terrorismo a uma estratégia de sobrevivência do regime de João Lourenço e vê contornos políticos no "timing" que afeta as ambições de Higino Carneiro no MPLA.

O Ministério Público angolano pediu uma pena de 18 anos de prisão para dois cidadãos russos julgados por terrorismo, num caso que envolve também dois cidadãos nacionais, para quem foram requeridas penas de 10 e 15 anos. Contudo, para o jornalista e ativista Rafael Marques, o processo está longe de ser uma mera questão de justiça. Em entrevista à DW África, o diretor do portal *Maka Angola* classificou o julgamento como um "expediente político" e um "teatro" desenhado à medida dos interesses geopolíticos do Governo de Luanda.

O aceno ao Ocidente

Segundo Rafael Marques, o julgamento serve um propósito claro: enviar um sinal de alinhamento com as potências ocidentais, numa altura em que a Rússia tenta expandir a sua influência no continente africano.

 "É um processo que visa demonstrar que temos aqui hoje um regime antirrusso e que precisa de todo o apoio do Ocidente para se manter no poder", afirma o ativista, lembrando que o Presidente João Lourenço se encontra no final do seu segundo mandato.

O ativista aponta ainda o que considera serem profundas contradições na postura do executivo angolano. Se existisse uma ameaça real de golpe de Estado orquestrada por Moscovo, a via diplomática teria sido afetada, argumenta. No entanto, Angola não cortou relações com a Rússia nem chamou o seu embaixador.

Mais ainda, Rafael Marques questiona a narrativa oficial que liga os arguidos ao grupo paramilitar russo Wagner (atual Afrika Korps). "O Presidente João Lourenço continua a manter na Presidência da República um general russo como assessor principal", denuncia, classificando a situação como um "absurdo" que expõe o "oportunismo político" do regime.

Travar Higino Carneiro?

Para além da dimensão internacional, o processo — que entra agora na fase de alegações finais — projeta também uma forte sombra sobre a política interna angolana. O nome do político Higino Carneiro surge citado no "caso russos" precisamente no momento em que este dá passos firmes para se candidatar à liderança do MPLA, o partido no poder.

A coincidência temporal não convence Rafael Marques, que vê aqui uma clara "instrumentalização do poder judicial" para afastar adversários da corrida política. O ativista sublinha que o processo contra Carneiro esteve "em banho-maria há mais de seis anos" e foi reativado de forma suspeita.

"É fundamental que a justiça seja para todos e seja imparcial", defende Marques, esclarecendo que não contesta a necessidade de julgar casos de corrupção. O que considera "inaceitável" é a forma como o sistema judicial está a ser operado em Angola: "Para perseguir uns e proteger outros."

Para o ativista, este caso é mais um exemplo da cartilha de sobrevivência do partido que governa o país há meio século. "É assim que o MPLA está no poder há mais de 50 anos", remata.

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