Terça, 18 de Agosto de 2026
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Terça, 18 Agosto 2026 18:57

Estudo acusa China e Rússia de explorarem fragilidades do sistema autoritário em Angola

Uma pesquisa académica divulgada hoje sugere que a China e a Rússia usam e contribuem para o autoritarismo em Angola para obterem benefícios com financiamento que enriquece uma pequena elite e mantém os angolanos na pobreza extrema.

A pesquisa tem como base um trabalho de seis meses de quatro académicos/ativistas, entre os quais Florindo Chivucute, que apresentou as conclusões hoje, em Luanda, e que é diretor-executivo da organização da sociedade civil Friends of Angola.

Chivucute ressalvou que o trabalho académico não aponta que tenham sido a China e a Rússia a criarem o que considera “o sistema autoritário” de Angola, mas conclui que “estão a aproveitar-se desse sistema autoritário, da fragilidade das instituições para poderem obter benefícios”.

De acordo com os dados divulgados, em troca de petróleo, diamantes e outros recursos naturais, a Rússia atua em Angola “mais na questão da segurança e informação” e “a China continua a conceder muito crédito a Angola, comparando com a Europa ou os Estados Unidos da América, incluindo o próprio FMI [Fundo Monetário Internacional] e o Banco Mundial”.

A pesquisa concretiza que, entre 2002 e 2024, a China entregou a Angola “mais de 49 biliões de dólares [42 biliões de euros], em nome do povo angolano, mas os angolanos em geral não sabem em que condições esse dinheiro foi emprestado e como é que ele foi usado”.

Um financiamento “opaco”, considera o estudo, indicando que “mais de metade da população angolana [está] a viver uma pobreza multidimensional”.

“Como é que se explica que, em mais de duas décadas de investimento e de financiamento, os angolanos continuam pobres e uma elite pequenina, política e sobretudo ligada ao poder executivo, tornou-se a mais rica já vista na história de Angola”, questionou.

Florindo Chivucute apontou, também, que as leis laborais não estão a ser respeitadas, e os “salários míseros que muitas dessas empresas chinesas têm estado a dar ao povo”.

O ativista deu exemplo uma empresa que paga cerca de 60 mil kuansas (56 euros) por mês num país onde o salário mínimo é de 100 mil kuansas (94 euros).

Referiu-se depois à transferência de tecnologia, como as câmaras (de vigilância) que existem em todo o país e que, sublinhou, “são boas para combater o crime, mas só quando existem mecanismos para controlar como é que elas são usadas”.

“Em Angola, nós não sabemos como é que esses dados estão a ser usados, no entanto é sabido que elas têm capacidade de reconhecimento facial, agora também podem ler as matrículas dos carros”, afirmou.

Florindo Chivucute entende que o país não tem um sistema judicial, nem mecanismos de proteção dessa informação do público em geral e que, “em vez de ela servir para combater o crime, pode ser usada de forma abusiva contra todos aqueles que o regime não concordar”.

O autor disse ainda que esta pesquisa serve também para lançar um desafio aos angolanos para se questionarem “porque é que o poder investe desta forma, porque existe tanta corrupção, tanta impunidade, porque é que o poder judicial não funciona para o cidadão comum, só para aqueles que têm o poder político”.

“Os cidadãos não podem continuar a pensar apenas que são vítimas, todos têm responsabilidades e quem está a permitir isso tudo é o partido no poder, mas também todos nós, nós também somos parte desse colapso, ou mesmo paradoxo, em que num país tão rico como Angola a população continua a viver em extrema pobreza”, declarou.

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