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Quinta, 10 Setembro 2026 16:00

Governo promete água a 7,5 milhões em Luanda, mas metade dos angolanos continua sem electricidade

Mais de 2,5 mil milhões de dólares serão aplicados em dois grandes projectos para reforçar o abastecimento de água na capital. O Governo admite, contudo, que cerca de metade da população angolana permanece sem acesso à electricidade.

O Governo angolano prevê começar a mudar, a partir de 2027, o mapa do abastecimento de água em Luanda, com um investimento superior a 2,5 mil milhões de dólares (cerca de 2,1 mil milhões de euros) em duas grandes infra-estruturas que deverão permitir servir aproximadamente 7,5 milhões dos 8,6 milhões de habitantes da capital.

A dimensão do investimento contrasta, porém, com outro dado revelado pelo próprio Executivo: cerca de metade da população angolana continua sem acesso à electricidade. A electrificação do território permanece, por isso, uma das prioridades anunciadas pelo Governo, numa altura em que o país procura simultaneamente aproveitar a capacidade excedentária de produção eléctrica para exportar energia aos países vizinhos.

As duas realidades foram expostas pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, numa entrevista à Televisão Pública de Angola (TPA).

Dois projectos para reduzir o défice de água

O investimento destinado a Luanda está concentrado nos projectos BITA e Quilonga Grande, duas das maiores obras de infra-estruturas de abastecimento de água em curso no país.

Na margem sul do rio Kwanza, o BITA terá capacidade para captar e tratar 250 mil metros cúbicos de água por dia e foi projectado para servir cerca de 2,5 milhões de pessoas.

A infra-estrutura deverá chegar a zonas da capital que nunca tiveram acesso à rede pública de água, mas também contribuir para reduzir o défice que afecta áreas já integradas no sistema de abastecimento.

A conclusão está prevista para o primeiro trimestre de 2027. Segundo João Baptista Borges, os testes deverão começar em Janeiro, seguindo-se uma entrada em funcionamento progressiva.

Maior será a escala do Quilonga Grande, situado na zona de Bom Jesus, no Nordeste de Luanda. O projecto, que o ministro descreveu como o maior deste tipo construído em Angola e um dos maiores do continente africano, terá capacidade para captar e tratar 500 mil metros cúbicos de água por dia.

A infra-estrutura foi dimensionada para um universo de cerca de cinco milhões de habitantes e deverá, de acordo com a previsão do Governo, ficar concluída até ao final deste ano.

Reforço será gradual

A entrada em funcionamento dos novos sistemas não significará, contudo, que toda a população abrangida passe imediatamente a ter água canalizada.

João Baptista Borges explicou que as melhorias serão graduais e deverão começar pelas zonas onde o abastecimento é actualmente mais irregular, devido ao défice existente.

A expansão da cobertura dependerá também da execução das ligações domiciliárias previstas nos projectos.

No Quilonga Grande estão previstas 250 mil ligações, enquanto o BITA deverá permitir mais 170 mil, num total de 420 mil ligações às habitações.

Nas áreas onde a instalação de canalização não seja possível devido à falta de arruamentos ou de outras infra-estruturas, o Governo afirma que procurará levar os pontos de abastecimento “o mais próximo possível das casas”.

A promessa surge num contexto de forte crescimento urbano de Luanda, onde a expansão da população tem sido acompanhada por uma pressão crescente sobre as redes de água e outras infra-estruturas básicas.

Metade do país ainda sem electricidade

O desafio é ainda maior no sector eléctrico. De acordo com o ministro da Energia e Águas, metade dos angolanos continua sem acesso à electricidade.

“A prioridade é a electrificação do território exactamente porque temos metade dos angolanos sem acesso”, afirmou João Baptista Borges.

O governante garantiu que o investimento público está orientado para aumentar a cobertura da rede e responder às necessidades das populações que permanecem fora do sistema.

“O nosso esforço, a nossa actividade e o investimento público são dirigidos para a electrificação do nosso país”, acrescentou.

O dado revela uma das principais contradições do actual sistema energético angolano: o país ainda tem milhões de pessoas sem electricidade, mas dispõe, simultaneamente, de capacidade de produção superior às necessidades actuais em determinados períodos.

Angola quer vender energia aos países vizinhos

É precisamente esse excedente que o Governo pretende transformar numa oportunidade económica.

João Baptista Borges defendeu que Angola deve aproveitar o actual superavit de produção eléctrica para responder não apenas às necessidades internas, mas também para exportar energia para os mercados da região.

A estratégia passa por reforçar as interligações com a Namíbia, Zâmbia e República Democrática do Congo, criando condições para uma maior integração dos sistemas eléctricos da África Central e Austral.

O ministro salientou que essas ligações poderão funcionar nos dois sentidos. Angola poderá exportar electricidade quando tiver produção excedentária, mas também importar energia no futuro, caso a procura interna ultrapasse a capacidade disponível.

“Hoje nós temos superavit, amanhã podemos ter défice”, afirmou, defendendo uma lógica de complementaridade entre os sistemas energéticos dos diferentes países.

A construção e operação das linhas de transmissão deverá contar com investimento privado, segundo o ministro, permitindo criar uma rede regional capaz de facilitar a circulação de electricidade entre os países interligados.

O desafio de transformar investimento em acesso

A estratégia anunciada pelo Governo coloca Angola perante uma dupla exigência: expandir o acesso aos serviços básicos dentro do país e, ao mesmo tempo, transformar a capacidade excedentária de produção energética numa fonte de receitas e integração regional.

Em Luanda, a promessa é de que milhões de pessoas passem a beneficiar de um abastecimento de água mais regular a partir de 2027, à medida que o BITA e o Quilonga Grande entrarem em funcionamento.

No sector eléctrico, porém, o ponto de partida continua a ser mais difícil: um em cada dois angolanos permanece sem acesso à electricidade, apesar do excedente de produção que o Governo pretende agora canalizar para os mercados vizinhos.

O sucesso da estratégia dependerá, em grande medida, da capacidade de transformar os grandes investimentos em redes efectivamente operacionais e em serviços que cheguem às populações. Para Luanda, o próximo teste será a entrada em funcionamento dos novos sistemas de água. Para o país, permanece a tarefa mais ampla de levar electricidade a milhões de pessoas que ainda estão fora da rede.

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