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Quinta, 10 Setembro 2026 11:14

Corredor do Lobito: Ocidente procura conter a China, mas Pequim pode sair a ganhar

Um artigo publicado hoje pelo CEDESA aponta a construtora portuguesa Mota-Engil como determinante no controlo da China sobre o Corredor do Lobito, em Angola, no qual o Ocidente aposta para reduzir a dependência do mercado chinês.

O Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA) sublinha o que classifica de “Paradoxo Chinês” no artigo dedicado à influência da China no Corredor do Lobito, o mega projeto ferroviário para ligar o Atlântico ao interior mineiro de África e facilitar a exportação de minerais como cobre e cobalto.

“A China controla, através da Mota-Engil, uma parte essencial da infraestrutura que o Ocidente pretende usar para reduzir a dependência da China. É uma ironia estratégica difícil de ignorar”, lê-se no artigo publicado pela organização que se dedica ao estudo e investigação de temas políticos e económicos da África Austral, em especial de Angola.

O projeto do Corredor do Lobito junta Estados Unidos, União Europeia e governos de Angola e República Democrática do Congo e, como recorda a análise, “procura oferecer uma alternativa logística ao predomínio chinês na exportação de cobre, cobalto e outros minerais estratégicos” provenientes da República Democrática do Congo (RDCongo) “e, em menor escala, de Angola”.

No artigo concluiu-se que “paradoxalmente, um dos grandes beneficiários final da sua operacionalização é a China”.

Nesta conclusão aponta “o papel determinante da Mota-Engil, cuja governação é fortemente influenciada por acionistas chineses, a propriedade chinesa de uma parte substancial das minas que alimentarão o corredor, e a incapacidade estratégica do chamado Ocidente, marcada por hesitações, falta de visão e um ambiente cultural que desvaloriza a ambição coletiva”.

A CEDESA aponta que a primeira razão do posicionamento chinês “reside na centralidade da Mota-Engil no projeto” por se ter tornado “simultaneamente, um relevante operador ferroviário, um dos maiores adjudicatários de obras complementares e um ator com presença simultânea em Angola e na RDCongo, algo que poucas empresas europeias conseguem replicar com escala e continuidade”.

“Nos últimos anos, a Mota-Engil assegurou contratos essenciais para a reabilitação de troços ferroviários, modernização de estações, construção de pontes e obras de engenharia pesada associadas ao corredor”, indica.

No artigo lembra-se que a “Mota-Engil é hoje uma empresa com influência chinesa determinante”, com cerca de um terço das ações, e posição chinesa na administração, embora a empresa continue formalmente portuguesa.

Para o autor, “a Mota-Engil tornou-se, assim, um instrumento híbrido, simultaneamente europeu na fachada e chinês na estrutura de decisão”.

A segunda razão indicada é o facto de “uma parte substancial das minas de onde sairão os minerais transportados pelo corredor pertencer a empresas chinesas”.

“A China consolidou, ao longo das últimas duas décadas, uma posição dominante no setor de cobre e cobalto da República Democrática do Congo. O país controla entre 70% e 80% da produção industrial destes minerais, através de participações maioritárias em 15 das maiores minas congolesas”, refere.

O Corredor do Lobito foi pensado, recorda o artigo, como alternativa logística ao transporte destes minerais, que atualmente seguem maioritariamente para portos da Tanzânia e da África do Sul.

A CEDESA observa que “alterar a rota não altera a propriedade” e que “se os minerais continuam a ser extraídos por empresas chinesas, o corredor apenas facilita a exportação de recursos controlados por Pequim, agora através de uma infraestrutura promovida pelo Ocidente”.

A China beneficia duplamente porque, prossegue-se no artigo,  o Corredor do Lobito lhe “reduz de forma significativa os custos de transporte ao disponibilizar uma rota mais curta, mais estável e menos congestionada para o Atlântico”, e diversifica as vias de exportação, tanto para mercados ocidentais como asiáticos.

“Esta realidade não decorre de qualquer má gestão Ocidental recente, mas de duas décadas de investimento chinês consistente, paciente e estrategicamente orientado”, lê-se no artigo.

O ocidente hesita enquanto a China observa, investe, consolida posições e beneficia da infraestrutura que outros financiam e promovem, conclui.

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