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Sábado, 19 Setembro 2026 10:50

Corrida de João Lourenço à liderança do MPLA poderá aprofundar divisões internas antes de 2027

A eventual consolidação de João Lourenço como candidato isolado à liderança do MPLA poderá acentuar as divisões internas no partido e alterar o quadro político da formação no período que antecede as eleições gerais de 2027. Analistas ouvidos pelo Novo Jornal admitem que uma disputa interna sem espaço efectivo para candidaturas alternativas poderá provocar o afastamento de sectores descontentes e levar parte dos militantes a expressar o seu desagrado nas urnas.

João Lourenço, que também exerce o cargo de Presidente da República, formalizou a sua candidatura à liderança do MPLA no âmbito do IX Congresso Ordinário, marcado para 9 e 10 de Dezembro deste ano, em Luanda. A candidatura foi validada pela estrutura responsável pelo processo eleitoral interno do partido.

O processo de sucessão na liderança do MPLA, contudo, tem sido marcado por forte contestação interna. Entre os nomes que procuraram disputar a presidência do partido esteve o general na reforma Higino Carneiro, que formalizou a candidatura em Junho com mais de 19 mil subscrições.

A candidatura de Higino Carneiro acabou, entretanto, por ser considerada nula pela Subcomissão de Candidaturas do MPLA. Segundo o órgão, a análise do processo encontrou, entre outras irregularidades alegadas, assinaturas falsas, documentos considerados inválidos e subscrições que não correspondiam aos requisitos estabelecidos. O MPLA afirmou ter considerado válidas apenas 2.561 das 14.493 fichas analisadas.

É neste ambiente de tensão que se coloca a questão sobre os efeitos políticos de uma eventual corrida de João Lourenço sem concorrência efectiva à liderança do partido.

Para os analistas, uma solução deste tipo poderá ter consequências para a coesão interna do MPLA, sobretudo entre militantes que defendem maior abertura no processo de escolha da liderança.

Fernando Pacheco, antigo conselheiro do Presidente da República, considera que o caso Higino Carneiro expõe aquilo que classifica como uma incapacidade do MPLA para lidar com práticas democráticas internas.

“O partido no poder tem sempre um discurso que nada tem a ver com a sua própria prática e, assim sendo, são legítimas as dúvidas ou certezas de que possamos caminhar em direcção à democracia enquanto o MPLA estiver no poder”, afirma.

Na leitura de Pacheco, o episódio deverá ser analisado para além da disputa individual entre candidatos. O antigo conselheiro entende que a forma como o partido conduz os seus processos internos constitui também um indicador sobre a sua capacidade de acomodar divergências e promover mecanismos de participação política.

O próprio MPLA sustenta, porém, que o processo de escolha da liderança decorre de acordo com os seus Estatutos e regulamentos. Na convocatória do IX Congresso, o Comité Central estabeleceu entre os pontos do conclave a apresentação das moções de estratégia, a eleição do presidente do partido e a eleição do novo Comité Central.

A direcção do partido tem igualmente defendido a necessidade de unidade interna tendo em vista as eleições gerais de 2027. Na convocatória do congresso, o Comité Central associou expressamente a renovação da liderança à preparação do partido para o próximo ciclo eleitoral.

A questão que permanece em aberto é saber até que ponto uma disputa pela liderança limitada ou marcada pela contestação poderá afectar essa unidade.

Para os analistas que acompanham a vida interna do partido, sectores descontentes poderão não necessariamente abandonar o MPLA, mas poderão manifestar a sua insatisfação através do voto nas próximas eleições. Esta possibilidade é apresentada como um dos principais riscos de uma crise interna prolongada: a divergência que hoje se manifesta dentro das estruturas partidárias poderá, em 2027, transferir-se para o comportamento eleitoral dos militantes e simpatizantes.

A importância da disputa pela liderança ultrapassa, por isso, a própria presidência do MPLA. O próximo líder do partido terá um papel central na definição da estratégia eleitoral para 2027 e poderá ter influência determinante na escolha da candidatura presidencial da formação política.

João Lourenço não poderá concorrer a um terceiro mandato presidencial, por força dos limites constitucionais. Caso mantenha a liderança do MPLA, a definição do candidato do partido às eleições gerais de 2027 ganhará, assim, uma dimensão adicional.

O congresso de Dezembro surge, deste modo, como um momento decisivo para o futuro imediato do MPLA. Além da eleição dos novos órgãos, estarão em causa a capacidade do partido para gerir as divergências internas, acomodar diferentes correntes e preservar a coesão necessária para enfrentar o ciclo eleitoral de 2027.

Num partido que governa Angola desde a independência, a disputa pela liderança não representa apenas uma questão de sucessão interna. O modo como o MPLA conduzir este processo poderá também influenciar a sua organização política e a relação com o eleitorado no período que antecede as próximas eleições gerais.

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