A atmosfera festiva e reflexiva que se previa para a iniciativa política cedeu lugar a um cenário de apreensão, com as forças de segurança a cercarem o perímetro da actividade, gerando atritos constantes com a população e militantes que tentavam aceder ao recinto principal.
O presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, denunciou, através da sua página oficial, um alegado atentado contra o deputado e secretário-geral da Juventude Unida Revolucionária de Angola (JURA), Nelito Ekuikui. "Agentes da Polícia Nacional atentam contra a vida do deputado e secretário-geral da JURA, Nelito Ekuikui, que escapa ileso do ataque. Uíge acorda com a liberdade dos cidadãos limitada", escreveu o líder da maior força da oposição parlamentar.
Segundo relatos de participantes presentes no local, efectivos da Polícia Nacional terão recorrido ao lançamento de gás lacrimogéneo para dispersar militantes e simpatizantes da UNITA, provocando momentos de pânico e obrigando várias pessoas a abandonar o recinto onde decorria a actividade política. Até ao momento, as autoridades policiais ainda não divulgaram uma versão oficial sobre os acontecimentos.
As denúncias surgem num contexto de crescente preocupação entre dirigentes e militantes da UNITA, que afirmam estar a ser alvo de alegadas intimidações, ameaças e outras formas de pressão política. A presença de altas figuras do partido, incluindo Adalberto Costa Júnior, conferiu maior sensibilidade ao evento. A UNITA é actualmente a principal força da oposição parlamentar, na Assembleia Nacional.
O clima de tensão terá começado ainda na sexta-feira, quando, segundo fontes ligadas à UNITA, militantes do MPLA colocaram uma bandeira do partido junto ao secretariado provincial da oposição, seguindo posteriormente para o município do Negage, onde decorre o Acampamento Nacional da JURA. A mesma fonte sustenta que o local da actividade juvenil terá sido invadido por militantes do partido no poder.
De acordo com os relatos recolhidos, os militantes do MPLA, alegadamente liderados por Virgílio Cordeiro João, antigo secretário do Departamento de Informação e Propaganda (DIP), terão organizado uma actividade política nas proximidades do acampamento da JURA. Um vídeo colocado a circular nas redes sociais mostra um homem identificado como Virgílio João no interior de uma viatura, afirmando que "quem abusa o MPLA nunca terá paz", ao mesmo tempo que exibe uma camisola com a inscrição "EME-27" e apela à mobilização de militantes para uma actividade relâmpago no Negage. A autenticidade e o contexto integral das imagens não foram confirmados de forma independente.
As alegadas acções têm sido alvo de críticas por parte de alguns académicos e cidadãos locais, que consideram tratar-se de manifestações de intolerância política incompatíveis com os princípios do pluralismo democrático. Algumas das críticas estendem-se igualmente ao Governo Provincial do Uíge, sendo referido, sem confirmação oficial, um eventual beneplácito das autoridades provinciais às acções denunciadas.
Cidadãos ouvidos pela nossa redacção afirmam que a crescente influência de Virgílio João na mobilização política do MPLA na província tem contribuído para o agravamento das tensões entre os dois principais partidos. Segundo estas fontes, o seu nome já havia sido associado a incidentes ocorridos anteriormente no município de Sanza Pombo, onde alegadamente militantes do MPLA terão tentado impedir uma actividade política da UNITA. Estas alegações não foram confirmadas pelas autoridades nem pelos visados.
Os mesmos relatos indicam ainda que, durante os incidentes registados no acampamento da JURA, alguns militantes da UNITA terão sido detidos pela Polícia Nacional, enquanto os alegados invasores não terão sido alvo de qualquer intervenção. Também esta informação permanece sem confirmação oficial por parte das autoridades competentes.
Um ancião residente no Uíge, que pediu para não ser identificado por receio de represálias, manifestou preocupação com o agravamento do ambiente político na província. Segundo afirmou, "instalou-se um clima de guerra que podia ser evitado". O cidadão questionou a necessidade de confrontos entre forças políticas, recordando que o espaço utilizado para o acampamento da JURA teria sido previamente cedido pelas autoridades municipais. "Não podemos transformar diferenças políticas em conflitos entre irmãos. Todos somos da mesma terra e devemos preservar a paz", apelou. Até ao momento, nem a Polícia Nacional, nem o Governo Provincial do Uíge, nem a direcção provincial do MPLA reagiram publicamente às acusações.

