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Domingo, 05 Julho 2026 21:48

Justiça portuguesa mantém congelados 72 milhões de euros do general "Dino" a pedido de Angola

A Justiça portuguesa confirmou o congelamento de 72 milhões de euros pertencentes ao general Leopoldino Fragoso do Nascimento, conhecido como "Dino", um dos homens mais influentes do círculo do antigo Presidente angolano José Eduardo dos Santos. A decisão resulta de um pedido de cooperação judiciária apresentado pelas autoridades angolanas, no âmbito de um processo-crime que corre em Angola e no qual o antigo dirigente foi condenado, em primeira instância, a cinco anos de prisão.

O arresto das contas bancárias foi inicialmente decretado pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), na sequência do pedido formulado por Angola, tendo posteriormente sido validado por um juiz de instrução. Em Abril deste ano, o Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a medida, rejeitando o recurso apresentado pela defesa de Leopoldino do Nascimento.

Os advogados do general alegaram que o congelamento foi efectuado de forma indiscriminada, defendendo que parte dos valores depositados nas contas bancárias pertencia à sua esposa, falecida em 2021. Segundo a defesa, essa parcela do património deveria ser considerada pertença das quatro filhas do casal, enquanto herdeiras legais, não podendo ser abrangida pela medida de arresto.

A defesa contestou igualmente a legalidade do pedido apresentado por Angola, argumentando que o Serviço Nacional de Recuperação de Activos não tem competência para emitir cartas rogatórias internacionais. Citando a Convenção de Auxílio Judiciário entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), os advogados sustentaram que apenas as Procuradorias-Gerais podem formalizar pedidos desta natureza.

Contudo, os juízes desembargadores Ana Lúcia Godinho, Ana Cristina Cardoso e Manuel Ramos da Fonseca entenderam que o pedido de cooperação internacional cumpria os requisitos legais exigidos, mantendo assim o congelamento dos saldos bancários.

Leopoldino do Nascimento, actualmente com 63 anos, foi durante décadas uma das figuras mais poderosas do aparelho político e económico angolano. Próximo de José Eduardo dos Santos, acumulou participações em sectores estratégicos como o petróleo, banca, telecomunicações, distribuição, indústria e comunicação social, tornando-se um dos empresários mais influentes do país.

Até à chegada de João Lourenço à Presidência da República, em 2017, o património do general "Dino" era estimado em cerca de mil milhões de dólares. Parte dessa fortuna viria posteriormente a ser entregue ao Estado angolano, no âmbito do processo de recuperação de activos promovido pelo actual Executivo.

Em Novembro do ano passado, o Tribunal Supremo de Angola condenou Leopoldino do Nascimento a cinco anos de prisão pelos crimes de falsificação de documentos, branqueamento de capitais e outros ilícitos. No mesmo processo, o general Hélder Vieira Dias "Kopelipa" foi absolvido. A decisão judicial encontra-se actualmente em fase de recurso.

O caso insere-se na estratégia das autoridades angolanas de recuperação de activos alegadamente obtidos de forma ilícita durante o consulado de José Eduardo dos Santos, estratégia que tem recorrido aos mecanismos de cooperação judiciária internacional para localizar e apreender património existente no estrangeiro.

Entretanto, permanece sem desfecho outro dos processos judiciais mais mediáticos envolvendo antigos responsáveis angolanos. O ex-vice-presidente Manuel Vicente continua sem julgamento em Angola, oito anos depois de a Justiça portuguesa ter decidido remeter para aquele país o processo em que era investigado por suspeitas de corrupção.

Em Maio de 2018, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu transferir o processo para Angola, invocando o interesse da boa administração da justiça e a eventual reinserção social do antigo governante em caso de condenação. Contudo, decorridos oito anos sobre essa decisão, Manuel Vicente ainda não foi julgado, alimentando críticas sobre a morosidade da justiça angolana em processos de elevado impacto político.

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