Poucas figuras vivas conhecem tão bem os bastidores do financiamento entre a China e África como Manuel Domingos Vicente. Vice-presidente da República de Angola entre 2012 e 2017, sob a presidência de José Eduardo dos Santos, Vicente passou mais de uma década, antes disso, à frente da Sonangol, a petrolífera estatal que, em Angola, funciona menos como uma empresa do sector energético e mais como o verdadeiro tesouro do Estado. Foi sob a sua liderança que se desenhou aquilo que ficou internacionalmente conhecido como "o modelo angolano" de financiamento — e foi depois, já na vice-presidência, que geriu essa mesma relação ao nível político. Poucos estiveram, como ele, dos dois lados da equação: do lado da indústria que prometia o petróleo e do lado do governo que gastava o dinheiro.
Uma economia mais estreita do que parece
Angola é o segundo maior produtor de petróleo bruto de África. O petróleo pesa cerca de um quinto do PIB do país e assegura perto de metade da receita do Estado. Mas a produção vem a cair há mais de uma década: de um pico de aproximadamente 1,9 milhões de barris diários, entre 2008 e 2010, para cerca de 1,03 milhões em 2025. Em janeiro de 2024, Angola saiu da OPEP depois de recusar uma quota que considerou irrealista — ainda que, segundo analistas, o declínio da produção se deva sobretudo ao envelhecimento dos campos petrolíferos e ao abrandamento do investimento, e não à organização em si. É este o pano de fundo fiscal quando Vicente afirma, hoje, que Angola "produz menos do que produzíamos antes".
Foi também neste contexto que se ergueu, ao longo de cerca de duas décadas, um dos maiores pacotes de crédito chinês a um país africano: mais de 42 mil milhões de dólares comprometidos por instituições chinesas — mais do que a qualquer outra nação do continente. No final de 2021, Angola devia 13,6 mil milhões de dólares ao Banco de Desenvolvimento da China e quatro mil milhões ao Banco de Exportação e Importação chinês, um conjunto que representava então cerca de 40% da dívida externa do país. O mecanismo ficou conhecido como "modelo Angola": financiamento de infraestruturas garantido por futuras entregas de petróleo bruto, entregue diretamente como colateral do serviço da dívida.
Essa era, porém, está a fechar-se. Angola deixou de contrair empréstimos chineses garantidos por recursos naturais em 2017 e a dívida ligada a petróleo tem vindo a encolher desde então — caiu quase um quarto só no último ano, para 7,73 mil milhões de dólares. Quando, no início de 2026, a Sonangol procurou um novo financiamento chinês de 4,8 mil milhões de dólares para a refinaria de Lobito, os termos já não previam petróleo como garantia. A relação não terminou; mudou de forma.
"Não conseguimos convencer o governo americano"
Em fevereiro de 2002, terminava a guerra civil angolana. Duas semanas depois, uma delegação do governo embarcava rumo a Washington — Vicente entre eles. O objectivo, recorda, era simples: depois de 27 anos de guerra, o país precisava de capital para se reconstruir, e a primeira porta a que bateu foi a dos parceiros ocidentais já conhecidos.
"Não conseguimos convencer o governo americano a dar-nos essa ajuda", afirma. A delegação procurou também o Clube de Paris, o Banco Mundial e o FMI. Segundo Vicente, nenhum se envolveu verdadeiramente: "Não nos deram atenção. Por isso, fomos para o Oriente."
O primeiro empréstimo chinês, de dois mil milhões de dólares e garantido por petróleo bruto, destinou-se à reconstrução do país. Seguiram-se outros. Ao longo da década seguinte, o acordo tornou-se um dos casos mais estudados na literatura sobre a relação entre a China e África — e um dos exemplos mais citados nos debates sobre sustentabilidade da dívida e financiamento garantido por recursos naturais.
O que mais chama a atenção no relato de Vicente não é a defesa da parceria em si, mas a recusa em aceitar os termos com que, habitualmente, observadores externos a descrevem. A narrativa mais comum apresenta a China a chegar a África munida de capital e de uma estratégia; a cronologia que Vicente traça é, no entanto, inversa. Angola procurou primeiro financiamento ocidental, viu o pedido recusado, e só depois se voltou para o Oriente — por terem esgotado as alternativas.
"O país estava completamente em ruínas. Não tínhamos recursos financeiros e precisávamos de ajuda do exterior. Fomos à China, e a China ajudou-nos. Foi assim que começou esta relação forte."
Questionado sobre por que motivo Pequim se mostrou disponível quando Washington não esteve, Vicente não recorre a explicações ideológicas: "Neste mundo, cada um tem os seus próprios interesses." Na sua leitura, a China tinha, na altura, pouca experiência de cooperação internacional e procurava desenvolvê-la — e esse processo não foi fácil. O resultado é uma narrativa despida de sentimentalismo: nem benevolência chinesa, nem conspiração ocidental, apenas um Estado que precisava de dinheiro, um conjunto de instituições que se recusou a dá-lo e outro que o fez, cada um movido pelos seus próprios interesses.
Quanto à reacção ocidental, depois de o acordo começar a dar frutos, Vicente é directo: "O problema, na minha opinião e pela minha experiência, foi o ciúme. Acho que o Ocidente não acreditava que esta cooperação iria resultar. Quando começaram a ver resultados, ficaram com ciúme." Ainda assim, ao longo da conversa, repete uma ressalva: "Há espaço para todos. Há espaço para o Ocidente, há espaço para o Oriente."
"Foi um erro nosso"
O momento mais inesperado da entrevista surge quando lhe perguntam se a postura da China em relação a Angola mudou ao longo do tempo — se Pequim exigiu mais quando Angola estava mais fragilizada, logo após a guerra.
Vicente rejeita a premissa e coloca a responsabilidade do lado angolano.
"Acho que eles não mudaram nada no nosso relacionamento. Diria que houve erros. Sim, houve. Mas foi um erro nosso, não deles. Porque não defendemos os nossos interesses com firmeza. Eles jogam e agem como sempre agiram. Tentam tirar o máximo proveito possível. É preciso saber definir limites."
Esta resposta não corresponde a nenhum dos dois guiões dominantes sobre a relação entre a China e África. A narrativa da "armadilha da dívida" apresenta os Estados africanos como vítimas de uma estratégia deliberada; a narrativa contrária descreve as críticas ocidentais como ruído hipócrita em torno de uma parceria sólida. Vicente assume uma terceira posição — e interna: a assimetria era real, os negociadores chineses comportaram-se como negociadores se comportam, e a responsabilidade por aquilo que Angola não conseguiu garantir recai sobre os angolanos que estavam à mesa.
Vindo de alguém que esteve, de facto, sentado nessa mesa, a afirmação tem peso.
"Neste mundo, as regras são as mesmas para todos. Temos de lutar pelos nossos interesses, e o outro lado lutará pelos seus. A ideia é encontrar um terreno comum, um ponto de equilíbrio onde todos ganhem. Se não tivermos cuidado e não defendermos os nossos interesses, eles levam a melhor."
Ao generalizar este princípio, vale a pena notar o que ele admite e o que recusa. Admite que os termos possam ter sido desfavoráveis. Recusa, contudo, que termos desfavoráveis sejam, por si só, prova de exploração predatória. E desloca a discussão ética sobre os empréstimos chineses para o terreno da competência negocial africana — uma mudança de perspectiva com implicações reais para a forma como a literatura sobre financiamento garantido por recursos naturais é construída.
Sobre a estrutura concreta dos empréstimos, Vicente é específico: Angola manteve o direito de escolher os projectos, empresas chinesas executaram-nos, e entre 10% e 20% dos orçamentos foram reservados para conteúdo local — materiais ou mão-de-obra. Se essa cláusula foi de facto cumprida na prática é uma questão que a entrevista não esclarece, e que mereceria investigação própria.
"É bom quando os gigantes estão a brigar"
Questionado sobre a posição de Angola na disputa entre Estados Unidos, China e Rússia, Vicente responde com um pragmatismo quase cru: "É bom quando os gigantes estão a brigar. Enquanto estão distraídos, se conseguirmos alguma coisa, é bom para nós."
Descreve, depois, um ideal de mundo pacífico em que os Estados competem com base nas suas capacidades — para de seguida o afastar como irrealista. O que resta é um cálculo mais modesto: Angola tem recursos que os gigantes precisam e deve usar essa posição para construir capacidades internas.
"Os EUA querem ser líderes, a China quer ser líder, os russos também querem ser líderes, e vão continuar a lutar por isso para sempre. Um país pequeno ou médio faz bem em perceber quais são os seus principais interesses."
Mas o argumento mais desenvolvido — e que ocupa a maior parte da segunda metade da conversa — é que esse posicionamento externo é secundário. A prioridade, defende, é interna e continental. Três ideias repetem-se.
1 - Deixar de exportar matéria-prima.
"Devíamos deixar de ser exportadores de matéria-prima. Devíamos reforçar a cooperação com todos os países e com todas as empresas do mundo, mas devíamos transformar esses materiais internamente. Se continuarmos como estamos — a exportar diamantes, petróleo, minério de ferro e tudo o resto — não conseguiremos avançar."
A sua previsão para as relações entre África e a Ásia nas próximas cinco décadas assenta nesta ideia: empresas asiáticas a construir infraestruturas em África e a processar matérias-primas no continente, em vez de as exportar em bruto.
O contexto angolano ilustra bem o argumento: o país exporta petróleo bruto e importa combustíveis refinados. A refinaria de Lobito, atualmente em construção, procura inverter esse ciclo, posicionando Angola como polo regional de refinação para a República Democrática do Congo, a Zâmbia e a África do Sul. É, aliás, o mesmo projecto para o qual a Sonangol pediu o financiamento chinês em 2026 — o que significa que a própria transição para deixar de exportar matéria-prima está, mais uma vez, a ser financiada por Pequim.
2 - Desenvolver primeiro o comércio intra-africano.
"Antes de pensarmos em reforçar a cooperação com o Ocidente e com todos esses grandes gigantes, devíamos reforçar o nosso comércio interno em África." Vicente aponta as barreiras entre Angola e a Namíbia, e entre Angola e a República Democrática do Congo, defendendo uma abordagem comercial que trate o continente como um todo. Sobre a viabilidade de uma rede de transportes transafricana, a sua resposta assenta num determinismo infraestrutural quase absoluto: "Se construirmos as ferrovias, se construirmos as estradas e garantirmos a circulação das pessoas, o resto resolve-se sozinho." Traça, aliás, um paralelo directo com a integração europeia — há um século, lembra, também esta pareceria improvável.
3 - Conhecer a própria população.
É a prioridade menos esperada — e, de certo modo, a mais concreta. Vicente regressa repetidamente à falta de dados demográficos fiáveis em África. "Diz-se que a Nigéria tem hoje 250 milhões de pessoas. Estão todas registadas? É essa a questão." Antes de mais nada, argumenta, os Estados africanos precisam de saber quantas pessoas têm, onde vivem e o que fazem. "Se não nos conhecermos profundamente, é difícil avançar."
Por trás das três ideias, há uma única insistência, repetida de várias formas ao longo da entrevista: "Ninguém vai fazer isto por vocês. Têm de o fazer sozinhos."

